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maio 29, 2007
Cobertura da Feira do Livro
De um ano para o outro, a cobertura da Feira do Livro passou de crítica a inexistente.
No ano passado, todos os dias a imprensa nos brindava com pequenas reportagens sobre a Feira – essencialmente demonstrando que a mesma não tinha clientes, que não tinha condições, que as pessoas estavam descontentes, que as livrarias em volta não estavam a ser afectadas e muitas outras reportagens de reflectiam contrariedade ou entristecimento dos jornalistas com o objecto da sua reportagem. No entanto, este ano o caso alterou-se.
Tanto na imprensa escrita com nos outros órgãos de comunicação a Feira do Livro está quase inexistente na sua agenda, tendo somente sido referenciada no dia da sua abertura.
Em parte não é porque o evento esteja melhor ou pior do que nos anos anteriores, mas sim porque não há notícias – nada há que eles possam ou queiram dizer e da última vez que o fizeram, já estavam obviamente chateados de o fazer.
A organização e os participantes da Feira não organizam nada de interessante para os jornalistas, não lhes oferecem motivos de interesse para visitar a Feira para além dos já habituais e repetidos anualmente, não criam notícias em torno do evento nem o sabem promover seja em que local for (como na Internet),
para além da evitável e sempre intrusiva publicidade, que apenas diz ser a 77.ª e pouco motiva a falar ou a visitar o evento.
Não motivam, igualmente, plataformas organizadas de leitores ou com razões relacionadas com os livros.
A Feira do Livro vê-se, assim, coberta pela sua própria inacção e entropia.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:57 AM | Comentários (0) | TrackBack
maio 28, 2007
O que é a comunicação editorial no ponto de venda?
Como as editoras se situam no elo da produção do livro, a sua distância ao cliente final depende bastante do esforço que fazem nesse sentido.
São bastantes óbvias e conhecidas as vantagens que existem na criação e consolidação de canais comunicacionais (e comerciais) directos, pois permitem-lhes falar (e vender) directamente aos seus clientes sem intermediários. No entanto, as editoras não beneficiam de uma posição física no mercado e estão até, na maior parte das vezes, bastante afastadas e escondidas do público final.
Dado que o consumidor não pode vir facilmente até às editoras, o esforço de criação desses canais é muito lento e trabalhoso, podendo demorar anos até possuírem instrumentos que tenham impacto no mercado – nomeadamente através da activação de bases de dados, clubes de leitores, mailing lists efectivas, eventos organizados, acções de relações públicas, etc.
No entanto, as editoras podem aproveitar o trabalho já efectuado pelos canais para chegarem a grupos alargados de consumidores «trabalhados» e consolidados.
A vantagem dos editores é dupla, pois activam os consumidores no próprio mercado, reflectindo-se instantaneamente nas vendas.
Vejamos de que estou a falar:
Uma Fnac, por exemplo, pela sua própria presença e posicionamento no mercado, congrega à sua volta um determinado perfil de cliente. Esses clientes são trabalhados pela Fnac de modo a terem determinados motivos para lá irem repetidamente comprar (livros, no nosso caso). O mesmo poderíamos dizer das livrarias de zonas comerciais tradicionais, do Continente, dos quiosques, do Círculo de Leitores e de outros parceiros ou canais de venda.
Ou seja, cada canal ou empresa do mercado do livro, pelas características do serviço que apresenta, congrega um determinado público, com determinadas expectativas e características conhecidas, que uma editora pode aproveitar para direccionar a sua comunicação.
Uma editora, aproveitando a informação disponível sobre o consumidor, pode direccionar as suas mensagens e activar com sucesso o consumidor no local mais apropriado: em frente do produto e com a possibilidade de o poder comprar, tornando-se uma arma poderosíssima no processo de compra por impulso.
Como não há bela sem senão, apesar de essa forma ser bastante eficaz, a comunicação no ponto de venda é controlada pelo próprio canal e, como tal, as editoras estão dependentes dos canais – ou do preço por eles pedido – para que os «clientes da livraria» possam ser também «os clientes» comunicacionais das editoras. Os espaços de comunicação que os canais têm são vários, todos eles com uma diferente «mensagem» acerca dos produtos que lá colocamos: refiro-me nomeadamente à ocupação dos espaços físicos e gráficos privilegiados como topos, montras, escaparates, tops, catálogos, etc., assim como à possibilidade de colocação de materiais promocionais externos nos seus espaços – cartazes, ilhas, stand-ups, mostruários, separadores, flyers, etc.
Nota: o facto de alguns livreiros poderem comercializar Tops é da responsabilidade dos mesmos. Não concordo com o facto de mentirem ao seu público, mas entendo os motivos e as vantagens decorrentes.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 07:50 PM | Comentários (0) | TrackBack
maio 25, 2007
Editoras e imprensa
Se algo consegue caracterizar a relação entre estas duas indústrias de comunicação é a falta de comunicação entre elas.
Como o meu sócio, Paulo Ferreira, diz constantemente, existe uma incapacidade crónica por parte das editoras em compreender o funcionamento dos media e como se deve motivá-los a incorporar no seu trabalho de divulgação as actividades das nossas empresas editoriais.
Independentemente dos posicionamentos e agendas dos diferentes meios de comunicação, é possível fazer com que os media falem de forma positiva das editoras, desde que se consiga gerir a informação transmitida de acordo com as necessidades deles.
Não pretendo dissertar sobre coisas tão simples como news management ou princípios da comunicação, somente realçar as oportunidades existentes e lamentar que muitos editores se mantenham iludidos na cabalística esperança de que um livro, por si só, tenha a capacidade de motivar a comunicação e a venda.
O Paulo também costuma dizer uma coisa essencial: que a uma editora não adianta coleccionar pilhas de recortes sobre si mesma na comunicação social se estes recortes não forem capazes de suscitar uma ideia motivacional, um call to action que leve os consumidores a preferir essa editora.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:43 AM | Comentários (0) | TrackBack
maio 17, 2007
77.ª Feira do Livro de Lisboa
Aproxima-se novamente a Feira do Livro de Lisboa, desta feita a 77.ª.
Como saberão, sou extraordinariamente crítico em relação do modelo utilizado, algo que já muito foi falado neste blogue durante a edição n.º 76. Apesar de tudo, se o calor se mantiver e o interesse ainda persistir, visite o recinto, coma um gelado e aproveite, pode ser que dê acidentalmente de caras com uma obra que lhe mude a vida.
Mantendo um certo tom cáustico, destaco que, de todos os elementos comunicáveis da Feira do Livro, o único que de facto a organização faz um esforço por comunicar é o n.º da edição, 77.ª neste caso.
Da mesma forma, e antecipando as habituais críticas de que a imprensa não liga nada a este evento, façam como eu e observem (não li na totalidade, confesso) o dossiê de imprensa preparado para este evento e surpreendam-se com o monstruosamente completo dossiê de 29 páginas preparado para o efeito!
Sim, 29, leram bem. Para além do absurdo tamanho de uma tal peça de comunicação (uma página seria de mais tendo em conta a disponibilidade da nossa imprensa geral) que nenhum profissional irá ter tempo para ler ou paciência para reter, não tem sínteses, linhas de força, assinaturas ou qualquer informação que os jornalistas possam aproveitar plenamente na atarefa função de copy/paste em caixas de 500 caracteres que vulgarmente necessitam de fazer.
Se uma imagem vale mais do que mil palavras, por vezes cem palavras somente valem muito mais.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 05:11 PM | Comentários (0) | TrackBack
maio 16, 2007
Let the Wars Begin!
O valor de mercado das editoras portuguesas é tão baixo que inevitavelmente isto teria de acontecer.
Trata-se de estruturas mal dimensionadas, descapitalizadas, sem estratégias e posicionamentos de mercado, relativamente aleatórias na sua acção e sem qualquer valorização de conteúdos ou marca.
De facto, não temos editoras, temos importadoras de livros que traduzem e publicam em língua portuguesa, pelo que o seu valor se limita ao papel que têm a amarelecer no armazém e à posição sempre provisória que ocupam no mercado. Perante isto, à dúzia é mais barato e Miguel Pais do Amaral sabe-o bem.
Mas não está sozinho, pois parece que a guerra começou e poucos sabem onde irá parar.
Desde o início a investida de Pais do Amaral isolou a Porto Editora como rival, mas a Porto Editora, de Vasco Teixeira, acordou a tempo e decidiu não ficar somente a ver.
Os dados estão lançados, a Texto está comprada e a Asa em combate acérrimo, estando ainda perfilada a Plátano, a D. Quixote e, segundo fontes, outras mais, algumas delas surpreendentes.
Até o ano acabar muito irá mudar no sector em Portugal.
Não se pode é prometer que seja para melhor.
Addenda: no dia seguinte a situação alterou-se pois tanto Pais do Amaral confirmou estar firmado o acordo para aquisição da Asa como a Porto Editora desmentiu ter estado alguma vez na corrida por este ou qualquer outra editora.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:11 PM | Comentários (0) | TrackBack
maio 03, 2007
Dia’crítico
É sinal dos tempos, dirão uns, prova inequívoca do desjuízo literário final, dirão outros, a verdade é que hoje quero falar dos sinais que mudam as vogais livrescas tal as conhecemos.
Aceitando o repto de Jorge Palinhos, do extinto e contudo vivo Cruzes Canhoto, para abordar o tema da extinção da crítica e dos suplementos literários, começo por dizer do que não vou falar – apesar da sua importância. Não falarei das hierarquias de ocupação de espaço da imprensa e do mercado do jornalismo literário (gostaria, porém, de ouvir Rogério Santos a discorrer sobre isso), nem falarei da quase total ineficácia da comunicação editorial em Portugal (deixarei isso para outra altura).
Antes de pensarmos na extinção de algo, ou carpirmos idiotices como esta Kathleen Parker, do Condado dos Ricos do Sul da América, tentemos entender a utilidade da coisa – ah! E não, lamento, também não vou falar de capelas e amigos, favores e rivalidade, pois isso é «a outra utilidade da coisa», não a principal.
Para o editor, a função da prescrição encontra-se na prestação do serviço de informação ao mercado (parceiros e leitores) do produto que apresentou. Não só é uma corneta que alerta para a saída do livro, como sempre foi a mais excelente forma de se ultrapassar certa aleatoriedade de decisão de compra deste bem de experiência (juntamente com os prémios literários, onde também se faz uma valoração, comunicável, das características do livro). Ou seja, se o leitor não faz a mais pequena ideia de qual livro é que vai querer ler, pode procurar informar-se na prescrição do que está disponível no mercado e, mais ainda, do que poderá encontrar dentro do produto. Não que se pretenda estragar a leitura com a informação de que «ah, então o mordomo não foi visto na soleira da porta à hora do óbito», sendo ele a vítima mais habitual dos antigos policiais que não ousavam ensombrar a dignidade de detentores de cargos mais louváveis, mas sim para que possamos recolher informação que nos faça dizer «’pera lá, que este fulano descreve um tipo de escrita que me dá sono», ou «pois, pode não haver coincidências, mas parece que repetições há...».
Importante ainda é o papel do crítico no aumento do proveito da experiência de leitura. Pois, se a satisfação deste tipo de bens (de experiência) depende do sujeito, dos níveis de capital cultural, do interesse e da informação disponível para o leitor (entre outros elementos), significa que uma boa crítica é capaz de nos fornecer dados adicionais que permitirão «gostar» mais daquilo que vamos ler.
Assim sendo, grosso modo, permite que possamos escolher melhor no nosso processo de decisão e aumentar a capacidade de gozo das escolhas efectuadas.
Agora, o problema. O local onde habitualmente isso se faz, os suplementos literários, começa a escassear, apesar de hoje se publicarem mais livros do que nunca, o que parece contradizer a lei das necessidades.
Acham então que a crítica morreu? Não..., mudou para uma casa maior e melhor.
Na minha opinião, estamos a ver isto pelo lado errado do prisma (o triangulozinho nas pontas?). Há hoje mais livros do que nunca, assim como gente com capacidade e vontade para fazer crítica, sendo que o único problema desta suposta «extinção» se encontra no «habitat natural» onde nos habituámos a vê-la. Esse, sim, vai perdendo folhas – mais de mil por vezes – e, como no outro dia ouvi alguém dizer, repetindo, julgo eu, uma conversa tida com Ary dos Santos, «vão sendo substituídos pelos cadernos económicos» e quejandos destinados ao lazer e à vaidade, posso ainda extrapolar.
Pessoas a ler há, segundo dizem, cada vez «+», a escrever e a publicar também, assim como a querer falar, discutir, escutar, comprar, olhar, exibir, etc. os livros.
Basta procurar na blogosfera e logo encontraremos sítios mil, com qualidade maior ou menor que o tempo ou a utilidade tratarão de apurar e destinar a mais ou menos posts. Por cada Book Review impresso que morre nasce um Bookslut.com, por cada DN 6.ª temos um’A Invenção de Morel, um Da Literatura, um Leitura Partilhada, um Bibliotecário Anarquista, um Literatura e Arte, um Olho da Letra, etc., etc., etc.
Poderão dizer, «ah, não é a mesma coisa, e alguns não são só de crítica literária». Pois não, mas como tudo, os formatos mudam, adaptam-se a novos tempos e necessidades, juntam-se nas encruzilhadas onde o seu público está ou se habitua a vê-los, procurando os modelos de que ele mais gosta.
Morrem os Suplementos Literários? Vivam os Blogs Literários!
No entanto, e apesar de tudo, há cada vez mais espaço para ambos. Se uns optam por abandonar o espaço, logo outros ocupam mais e melhor, com outro uso e vantagem, logo agradecendo – muitas vezes as mesmas pessoas que antes habitavam as casas agora abandonadas.
Pessoalmente interessa-me mais que o Reino livresco siga pródigo, democrático no acesso, gratuito no uso e activo na leitura – com comentários, links de resposta, insultos e bujardas do leitor –, do que se arrede em tertúlias restritas, obsoletas e passivas de papel impresso.
Será necessário estruturar-se uma nova forma de criar valor e riqueza para que este novo formato possa florescer, talvez aproveitando as meta-capacidades deste meio, ou gerando conteúdos para outros suportes (como livros, que já no mercado se vêem).
Não nos podemos esquecer é que, como no post abaixo poderão ler, «o conteúdo é rei e o formato opcional».
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 07:19 PM | Comentários (0) | TrackBack