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fevereiro 23, 2007
Como se vende um livro?
A resposta que todos adorariam ouvir é: com um bom texto, ou conteúdo.
Infelizmente, ter um livro genial não é sinal de que o mesmo se irá vender, pois o conteúdo tem como característica o facto de só poder ser apreciado após a leitura.
De facto, antes da leitura não podemos saber se o livro é bom e, por isso, o facto de o conteúdo ser bom nada contribui inicialmente para a venda do livro.
O que vende um livro é aquilo que se comunica, mais exactamente aquilo que tem valor imediato e que tem reconhecimento, que cumpre as diferentes funções necessárias aos diversos estágios do processo de decisão do consumidor.
Desse modo, um bom conteúdo (como é só apreensível após a leitura) pode ter valor se ultrapassar a primeira barreira e for lido por alguém que queira comunicar a sua qualidade. Quanto mais comunicar, melhor. Se comunicar através de meios que intensifiquem a emissão, melhor ainda.
Já imagino algumas cabeças a perguntar: quê? Que funções? Que processo?
Enfim, não vamos por aí, isto é só um blogue...
Todos os elementos têm valores e informações que se transferem automaticamente para o consumidor, quer estejamos a falar do grafismo da capa, do tamanho do livro, da plataforma do autor (ou do acesso ao público fiel e final), do preço, da editora que o publica, do jornal que fala dele, da época em que o comercializam, do local de venda ou do texto de contracapa: todos os elementos estão a comunicar algo ao consumidor.
Por outro lado, cada segmento de público e de publicação necessita e entende as informações de forma diferente, tem valorizações que podem assumir posturas antagónicas para cada uma dessas informações, utilizando-as linear ou cumulativamente para ultrapassar ou prejudicar diferentes fases do processo. Falo de segmentos para não falar de indivíduos, pois cada um de nós realiza esse processo, de forma mais ou menos homogénea com o seu «grupo».
Para ilustrar esta ideia dou o exemplo do livro X que é vendido simultaneamente na mais tradicional livraria de Lisboa, numa feira municipal de rua em Albergaria e nos saldos de um Feira Nova no Algarve, e respondam-me vocês se teriam a mesma noção de qualidade desse livro quando observado nos diferentes locais.
Primeiro (e do ponto de vista da oferta, nos estádios avançados do processo de compra, para quem está habituado a estas andanças), é vital tornar-se visível.
De facto é necessário ver determinado livro para que possamos decidir num segundo se nos interessa ou não continuar o processo.
Para isso é necessário também que o livro esteja presente nos locais onde o público também está, e de modo a que o público o veja. Quando não for possível o objecto estar presente (Internet, por exemplo), deve haver informação sobre o livro que possibilite a continuação do processo (indicação dos locais de venda, por exemplo).
Para isso, acreditem que o formato, a distribuição ou a capa têm muito mais valor do que a qualidade do conteúdo. Se não se passar esta duna, o livro morre na praia.
Posteriormente, temos de cativar o público q.b. para que haja interesse em saber mais, fornecendo-lhe toda a informação que for necessária, da forma mais eficaz e simples, até que ele se decida pela compra do produto em questão em detrimento de um gelado, uma ida ao cinema, um fim-de-semana na Serra da Estrela, uma prenda para o filho ou um livro bastante parecido que está na mesa ao lado (para esta fase é necessário usar armas mais especializadas que prefiro não divulgar, mas indico-vos que os seus usos variam tanto quanto os públicos e os canais).
Simultaneamente, é preciso que o livro percorra canais que correspondam às necessidades e dificuldades dos seus clientes (imaginem-se a comprar um livro erótico numa livraria tradicional e concorrida, sem direito a saco ou embrulho e talvez compreendam de que estou a falar, depois transfiram isso para cenários mais correntes como o recurso a cartão de crédito ou a entrega em casa).
O que é preciso lembrar é que são várias as coisas que ajudam a vender um livro e muitas delas não são despiciendas nem podem ser desprezadas, pois cumprem funções que não só são insubstituíveis como inultrapassáveis.
Já agora, para a corrente que acha que a capa deve dar o ambiente da obra, tenham primeiro a certeza de que os leitores irão ver a capa antes de «sentir o ambiente».
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 03:36 PM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 18, 2007
Triste
Hoje, no DN, surge-nos Inês, uma profissional do nosso meio, com formação em jornalismo, que aprecia o que faz mas é levada pela jornalista sentada em frente dela a desabafar palavras difusas e genéricas (absurdas, portanto).
Pergunto-me, o que de mal tem um curso superior para ser considerado como um embuste?
Na vida só é certo que nada é certo e, de facto, um curso superior não é por si só sinal de fortuna, amor, sorte ou aventura. No entanto, para se alcançarem certas valências, para se obterem qualificações essenciais, enfim, para haver a possibilidade de ter sorte, é preferível ter o instrumento denominado de curso superior.
Que nem todos tenham a sorte do seu lado, é natural, de outro modo não se chamaria sorte, chamar-se-ia utopia (comunista ou outra).
Mas Inês também nos fala de uma realidade existente em todo o lado: salários bastante abaixo do nível de vida e das expectativas.
No mundo editorial essa é uma questão controversa, pois bons salários coabitam com salários de caixa de supermercado, mais por incompetência de editores diminutos (mais de mente do que de tamanho), que de gestão entendem tanto quanto de livros.
Mais do que haver maus salários, há maus projectos - se é que projectado foi! -, liderados por pessoas sem formação ou capacidade para eles. No fundo observam ser fácil abrir uma editora e acabam por ter uma tasca de produtos de refugo, onde a qualidade é algo de não aplicável.
Mas não vejamos estas pessoas com maus olhos, muitas gostam de livros sem saber o que é a edição (falta de formação, portanto).
Mas há depois também pessoas que confundem dinheiro com falta de qualidade, por não saberem fazer qualidade e dinheiro, e é dessas que falo.
Por esse motivo, é a falta de formação que leva a que essas pessoas não sejam bem pagas. Não a falta de formação delas, mas a falta de formação de quem está acima e não as sabe aproveitar.
E certas coisas demoram a mudar.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:29 AM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 17, 2007
Hábitos de leitura
Para quem faz da queixa uma arma sagrada, surgem hoje números pouco crípticos e bastante reveladores do crescimento deste sector em Portugal.
Dan Brown já ultrapassou, em Portugal, a cifra (revelada) do milhão de exemplares (1 019 518 ex.) - O Código Da Vinci, 502 672, Anjos e Demónios, 230 712, Conspiração, 175 692, Fortaleza Digital, 110 442 (presumivelmente).
Bem sei que nem todos os que compram o Livro leram os seus salmos e segredos, mas fica por saber se os antigos (leitores) também os liam...
Hoje no JN, ver aqui.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:31 AM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 14, 2007
Dicionário Editorial do Diabo
Após a Bárbara e a Inês (Tinta-da-China) terem publicado no ano passado uma parte importante dessa memorável obra de Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo, eis que noutras paragens da indústria alguém acrescenta entradas dignas de figurarem nessa obra-prima.
Ler: Dicionário Editorial do Diabo
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:22 AM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 09, 2007
O preço da capa
Durante anos considerada um adorno com carácter informativo mínimo, a embalagem principal dos livros, a capa, tem vindo nas últimas décadas a ser desenvolvida como um dos mais apurados instrumentos de comunicação dos produtos da indústria cultural.
Apesar de, nos últimos anos em Portugal, o desenvolvimento se ter manifestado principalmente (ou quase exclusivamente) ao nível do design, do valor apelativo, emocional e da qualidade perceptível, a capa é bem mais do que uma embalagem cujo splash de cor serve para destacar a obra por entre os escaparates atulhados.
Mais do que um objecto de design, a estrutura «deitada» de capa, contracapa, lombada e, eventualmente, badanas, tem uma componente editorial (com objectivos comunicacionais) de suprema importância, revelando-se o melhor instrumento de transmissão de informação e argumentos de venda ao consumidor.
Tendo-se especializado nas últimas décadas, onde cada espaço e hierarquia estão estudadas e testadas para cada objectivo e público, cada parte desta estrutura cumpre uma função essencial, tendo para isso determinados instrumentos e regras extremamente apertadas – nomeadamente no tempo/dimensão máximo de transmissão/função – que, se não forem correctamente executadas, acarretam o risco de fracasso dessa oportunidade única e, consequentemente, do fracasso da parte mais importante da difusão do livro: a venda.
Exemplos claros disso são as peças editoriais correntes, como o título e subtítulos (quando necessário), o texto de contracapa, biografia e blurbs (ou «anzóis»), cuja concepção depende mais do segmento de publicação a que nos dirigimos, do posicionamento da editora, dos critérios de aquisição do público-alvo e dos canais a utilizar (dependendo das características do contacto com o consumidor final e serviços prestados no package do retalhista) do que propriamente das características do livro.
Enquanto não tivermos em Portugal copywriters especializados nestas peças editoriais, arriscamo-nos a ser confrontados com excertos aleatórios a ocupar textos de contracapa, biografias que mais parecem resumos curriculares de uma entrevista de emprego e blurbs que não «pescam» nada, em livros de design excepcional com títulos cuja utilidade é afastar o público que mais iria ficar satisfeito com o livro.
Com livros assim tão «gagos», ainda se admiram que muitos deles não vendam?
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:41 AM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 02, 2007
IPLB
É oficial, o Conselho de Ministros acaba de aprovar a extinção do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (cujo site ainda funciona), transformado agora numa Direcção-geral sem autonomia própria e com capacidade ainda mais reduzida de acção.
Não que seja preocupante, pois o Instituto não tem um papel relevante no mercado. É, sim, revelador.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:31 AM | Comentários (0) | TrackBack