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junho 30, 2006

Contributo de Jorge Vaz Nande

Em vinte e cinco anos, as minhas Feiras do Livro não passaram por Lisboa ou pelo Porto, mas por Viana do Castelo e por Coimbra. Pela de Viana do Castelo, porque foi a primeira que conheci e onde ia em noites de Verão, levado pelos pais para desviar a rotina das férias em Vila Praia de Âncora. Era pequena, calma, simpática e mágica – talvez porque a vejo através da névoa da infância, enfim... A de Coimbra, porque foi a primeira onde entreguei um (terrível) original a um editor, porque foi aquela de que eu já vi mais edições, aquela de que realmente posso falar. Talvez o faça noutra altura. O mais importante, no entanto, talvez seja o facto de que raramente (e já lá vão oito anos) encontrei preços que realmente me satisfizessem na Feira – parece que para isso está a Festa do Livro, em Novembro, que só vende fins de edição, mas que, ao longo dos anos, demonstrou ter um catálogo algo limitado. Na sua congénere maior de Maio, só este ano é que vi secções de livro manuseado nas bancas a preços convidativos. Esse é, afinal, um critério fundamental para quem ganha pouco (Coimbra é terra de estudantes: o dinheiro não abunda), mas não quer abdicar da posse e propriedade de um livro. O livro será sempre, afinal, um produto, cuja dimensão de promessa de conhecimento ou entretenimento coexistirá sempre com a de bem objectivo, fabricado, e, como tal, oneroso. Espero que a perspectiva do livro electrónico e dos novos leitores digitais ajude a superar isso.
Depois deste percurso e com a curiosidade espicaçada por anos e anos de comunicação social a elevar a Feira do Livro de Lisboa a algo próximo de uma maravilhosa iluminação do espírito, aproveitei as minhas viagens recentes à capital para finalmente prestar uma visita ao Parque Eduardo VII.
As minhas críticas a preços (demasiado) altos mantêm-se. Não é a maior concentração de vendedores que faz actuar as leis da oferta e da procura no sentido de uma diminuição destes – não entendo por que é que não há edições baratas, mas sérias e com bom aspecto. Será que os editores não têm cheiro para um nicho de mercado representado nos milhares de licenciados (e mestres...) desempregados ou que recebem salários pouco significativos? E por que não há livros de bolso satisfatórios, só as edições da Europa-América, que têm um número imenso de títulos, mas com qualidade (muito) variável? Por isso, não espanta que as minhas secções preferidas tenham sido a dos alfarrabistas, com os livros a preços bem razoáveis (e, às vezes, coisas que procurava há anos) e as bancas com promoções, onde também encontrei algumas pechinchas. É que, a sério, se não for assim não vale a pena. Um tipo que visite um sítio onde há livros tem de se rir da possibilidade de encontrar um inédito de Camões a 3€, mas não se pode esquecer que, se é uma possibilidade, é porque é possível.
Pareceu-me também que o grande problema da Feira do Livro de Lisboa é o espaço. Podem dizer que é o Parque Eduardo VII a sua pousada natural, mas eu não acho natural uma Feira do Livro em que para se passear pelas bancas é necessário subir e descer uma ladeira (com o acrescento do peso dos livros que se vão comprando). Aliás, nunca tal vi em sítio algum. Se para mim foi difícil, imagino para uma pessoa de idade ou com mobilidade limitada. A verdade é que a Feira não é, digamos, ergonómica. Não está feita para se estar, é difícil de usufruir. Por outro lado, está demasiado exposta ao clima: no primeiro dia em que fui, o calor dentro da tenda dos pequenos editores era de tal modo que não sei se terei aguentado lá mais do que dez minutos.

Sugestão: e se a Feira do Livro pudesse ser algo mais próximo do que é a Festa da Música? Permanecendo como grande acontecimento comercial, teria um programa de conferências/conversas com escritores, leituras, apresentações teatrais, eventos maiores e menores, consoante o peso da editora e do autor. A minha acepção foi de que é necessário fazer com que a Feira seja um lugar onde apetece ir, que solicita a presença – que faça os livros viver durante algumas semanas do ano. É que, como já disse noutra altura, a palavra impressa é palavra morta – sempre à espera de uma voz que a ressuscite, pode ser, mas morta. Sem compreender isto, as Feiras do Livro não deixarão de ser mercados de cadáveres.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:24 AM | Comentários (0)

junho 29, 2006

Feira do Livro, Parte 2

Continuando o raciocínio anterior, para os agentes da Indústria do Livro, mais propriamente as editoras, a Feira do Livro é uma altura de muitas expectativas e ansiedades.
Ansiedades, pois parte da programação concentra-se nessa altura de forma a haver um rol de novidades que possam ser apresentadas, ocasionando vendas directas de monta e eventos que dêem destaque ao trabalho dos seus autores e livros, nomeadamente os livros portugueses, mas não só.
Igualmente, esta é a única oportunidades de comunicação com as massas de que uma editora dispõe ao longo do ano, onde pode contactar directamente com o seu público e saber as suas necessidades e avaliações.
Por outro lado, o facto de ser um evento de venda directa, faz com que, à semelhança das distribuidoras que participam, este evento possibilite um retorno rápido do dinheiro envolvido, com maiores margens de lucro, resolvendo o eterno problema mundial das editoras: falta de tesouraria.
É assim natural que surjam muitas expectativas, pois os perfis das editoras são diferentes e as suas necessidades comerciais e de comunicação também, não sendo possível conjugar todas essas diferenças de forma natural e concertada (nomeadamente ao nível da programação e das condições que as editoras podem ter para efectuar as suas acções).
Uma das diferenças fulcrais é a dimensão e o tipo de público a que uma editora se dirige. Sendo este um fenómeno relativamente mediático, o evento é frequentado por diferentes públicos, inclusive públicos que habitualmente não compram livros, que se dirigem ao local com a potencialidade de poderem adquirir alguma coisa.
É assim um fenómeno que conjuga, de forma relativamente plural, públicos mainstream e públicos de nicho que procuram determinado livro de determinada editora.
Para as editoras de nicho, que se vêem muitas vezes sem espaço privilegiado de colocação no mercado livreiro, esta é uma boa oportunidade para vender os seus livros, sendo que beneficiam com um evento desta natureza. Para as editoras que vendem livros mainstream, a questão pode não ser assim tão linear.
Isso porque as receitas das vendas dos livros de dois pontos de vendas (FLL e FLP) têm de conseguir suplantar financeiramente os prejuízos de quebra de vendas nas livrarias de Lisboa e Porto. Bem feitas as contas, podem, por vezes, sair a perder, em especial no relacionamento com as livrarias.

Para as autarquias e o Estado, este é um evento mediático, ligado à cultura, o que só por si justifica alguma atenção à política de imagem. É, no entanto, somente mais um evento e, na sua acepção, terá apenas de correr com normalidade, i.e. sem críticas.

Para a comunicação social, o simples facto de ser um tema mediático já justifica a sua presença e acção. É-lhe, no entanto, atribuída uma responsabilidade «cultural» de divulgarem o evento (em jeito de obrigação), como se as indústrias de comunicação não tivessem necessidades e objectivos que não se prendem necessariamente com a divulgação gratuita e promoção de eventos organizados por empresas.
De facto, critica-se a imprensa por não divulgar o evento, mas não se motiva a divulgação do evento. A imputação de responsabilidade não é, por si só, motivo para a divulgação.
Deve-se aproveitar o carácter cultural do evento para atrair a atenção dos órgãos de comunicação, para transmitir imagens positivas que atraiam clientes ao evento. Da mesma forma, uma política de comunicação tem de ser preparada com antecedência, tem de ser criada antecipação para que os visitantes queiram vir à Feira antes dela começar e não vacilem na altura de ir. Se a campanha começa somente no início do evento, haverá ainda um espaço de tempo para as pessoas lerem e decidirem ir (desperdiçando-se o «lançamento» da Feira).
É necessário também ter todos os meios de comunicação a funcionar e com dinamismo na altura da Feira (não é ter a página em offline até meio do evento).

Para o público em geral, esta é uma festa e uma ilusão.
Livros, é o que pensam.
Para aqueles que habitualmente convivem com eles, esta é uma oportunidade de estar no meio deles, de ver as editoras, procurar os livros que um dia quiseram comprar e se esqueceram. Este evento está ainda envolvido numa aura de festa: festa dos livros.
Para os que não convivem com os livros, esta é uma ocasião para frequentar um desses espaços. Não sendo motivados pelos livros em específico, acorrem ao local para «ver», para passear e participar nessa «festa». O simples facto de ser um evento, ter um carácter mediático, faz com que algumas pessoas se desloquem ao local para «ver».
Para estas pessoas, o objectivo é passar algum tempo e divertirem-se, podendo, com sorte, ser convencidas e comprar um livro cujo fenómeno da compulsão determina.

Agora que vimos por alto quem são os intervenientes e o que procuram, analisemos outros elementos essenciais.

As Feiras do Livro inserem-se no mercado do Livro (nas denominadas Vendas Especiais).
Por isso, quais são as características mais marcantes deste mercado na actualidade e de que forma influenciam o evento?

Genericamente, as principais características apontadas ao mercado são:
- Regulado pela Lei do Preço Fixo, que impede a grande concorrência com base no preço.
- Grande diversificação dos produtos em cada segmento.
- Imprevisibilidade da procura.
- Dependência de estratégias como Star-systems e Gate-keepers.
- Excesso de produção (mais de 16 000 novos títulos/ano).
- Tendência para o best-seller.
- Grande rotatividade dos livros (presença efémera dos títulos em escaparate).
- Estagnação das vendas.
- Forte concorrência ao nível dos produtos.
- Grande concentração dos pontos de venda.
- Concentração em determinados produtos-chave.
- Grandes excedentes armazenados.

A estrutura existente na Feira do Livro ultrapassa alguns destes problemas, nomeadamente a imprevisibilidade da procura (porque consegue juntar um enorme potencial de consumidores de livros num determinado espaço e tempo) e a grande rotatividade dos livros (pois possibilita que cada editor determine a presença de todos os livros com o destaque que entender).

No entanto, existem elementos que interferem com o fenómeno, nomeadamente o excesso de produção, os grandes excedentes armazenados e a grande diversidade de produtos. Estes elementos fazem com que a oferta seja de muitos milhares, causando dispersão e cansaço aos clientes (quem é que se atreve a ver a Feira num dia só?).
Por outro lado, o mercado não habituou os consumidores a comprar livros com base na marca, ou editora, mas sim com base no segmento ou autor (basta entrar em qualquer livraria para se aperceberem disso). É assim muito cansativo para os clientes terem de procurar o livro do assunto que querem, pois desconhecem onde procurar.

E aqui temos um primeiro problema encontrado:
O modelo não ajuda os clientes, cansa-os e pode prejudicar a venda de livros.

O facto de a Lei do Preço Fixo estar em vigor faz com que não exista grande atractivo financeiro na ida à Feira (excepto no caso do Livro do Dia), pois muitos pontos de venda, como a Fnac ou os Hipermercados, são capazes de praticar igual desconto nos livros disponíveis.

Aqui temos outro problema:
Será necessário encontrar outros atractivos para a compra dos livros, ou aprofundar as excepções legais neste evento.

O facto de existir uma tendência para o best-seller, assim como a dependência de star-system, indica que não existe falta de dinheiro para consumir, desde que se consiga atrair e justificar a venda de determinado produto. Dessa forma, a estagnação nas vendas pode justificar-se com outros motivos: a perda de «valor» do produto e a redução da «necessidade» dos livros, a disponibilidade epocal dos consumidores (pois existem épocas em que a disponibilidade financeira é maior, como em Dezembro ou em Julho) ou a pouca atractividade dos produtos (em comparação com produtos concorrentes ou similares).

A forte concorrência do mercado faz com que a oferta existente nele seja significativa e com algum valor. Dessa forma, é necessário tomar uma de duas opções: ou o evento concorre no mercado, ou evita a concorrência.

Se concorre no mercado, é necessário, em primeiro lugar, oferecer as mesmas contrapartidas que a concorrência (nomeadamente os principais espaços como Fnac, hipermercados e redes de livrarias dos centros comerciais). Esses espaços têm como vantagem as instalações e a localização, (por vezes) o atendimento, a multiplicidade de oferta (não tanto em quantidade de títulos, mas sim em outros produtos) e a capacidade promocional.

Existe logo um grande problema detectado nas Feiras: a falta de oferta de outros produtos que não os livros e a falta de capacidade promocional.

A capacidade promocional fica inibida com as restrições que o evento tem, que impossibilita a alteração (aumento, transformação, etc.) dos pontos de venda, a utilização de outros materiais, instalações, dispositivos audiovisuais, organização autónoma de eventos de maior dimensão, etc. Impossibilita assim que uma editora consiga ter a sua «imagem», o que é importante que mais não seja para dar indicações aos clientes do produto que vendem (ver problema acima).
Em relação à falta de produto, existe a vantagem de ter muitos livros (apesar de ser também uma desvantagem). Mas, nem toda a gente se desloca lá para ver livros. Dessa forma, proliferam bancas de gelados, farturas e doces. Seria também necessário que existissem outros produtos à venda, esplanadas maiores e melhores, restaurante, serviços (como aluguer de cestos ou depósitos), assim como produtos complementares, como jornais e revistas, inclusive produtos importados, etc.

Da mesma forma, ninguém quer comprar «Livros de Pequenas Editoras». Então porquê uma barraca de livros dessa natureza?
Por que não juntar em espaços únicos livros «a Menos de 5 Euros», ou «do País-tema: Angola», «de Autores Portugueses», ou «Sobre Lisboa/Porto», etc.? Isso não impede que os mesmos não possam estar à venda nas bancas, mas potencia a venda destes produtos, pois os clientes ao entrar já sabem que produto encontrarão.

Se preferirmos evitar a concorrência do mercado, temos de impedir a venda de livros que estão actualmente no mercado mainstream, nomeadamente as novidades.

(a continuar)

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 04:19 PM | Comentários (0)

Profissão de editor

Caso amem, de facto, esta profissão,

por favor leiam este artigo.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:44 PM | Comentários (0)

junho 28, 2006

Bertrand

Como já havia sido anunciado, a Bertelsmann comprou o grupo Bertrand.

O preço de venda não foi anunciado, sendo que se estima um valor que rondará os 20/30 milhões de euros.

Desconhecem-se quais as alterações orgânicas que serão feitas para combinar os esforços da Editora Temas & Debates com a Editora Bertrand.

Pergunta: Será que a anterior saída das directoras editoriais de ambas as casas editoriais e a alteração da periodicidade da revista Ler poderão ter sido ocasionadas por esta aquisição?

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:56 PM | Comentários (0)

Alentejo Blue

Mais um Off the Record...

Habitualmente não recomendo livros, mas achei intrigante que um livro sobre Portugal, mais propriamente sobre os habitantes de uma pequena aldeia do Alentejo (Mamarrosa - que, curiosamente, é no interior do distrito de Aveiro...), esteja a ser bem falado pela comunidade de editors inglesa.

Esta pode ser uma boa oportunidade de descobrir como, de facto, nos observam os turistas ingleses.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:36 PM | Comentários (0)

junho 27, 2006

Feiras do Livro, Parte 1

As críticas constantes são sintomas de que algo vai mal, de que existem clientes e agentes descontentes com o evento.
Muitos são os motivos apontados nestes e noutros contributos que passam essencialmente pelo «interesse» e «interesses» que o evento oferece, e pelos resultados comerciais ou outros.
Muito se tem falado sobre a face visível dessas críticas, os livros que se expõem, os autores que «torram», a falta de condições e/ou instalações, a escolha musical, a falta de promoção ou uma programação que seja mais convidativa, entre tantas outras críticas.
No entanto, as críticas são também a face que oculta os erros de um modelo que alguns consideram esgotado ou mal aplicado.

Seguindo uma antiga tradição, reduzamos o complexo termo «Feira do Livro» a perguntas simples e fáceis de responder, libertas da carga histórica, das relações entre agentes e envolvidos, dos fait-divers e/ou elementos de carácter transitório.

(recordando um livro agora premiado – Nacional de Ilustração 2005 para Gémeo Luís)
Quê Que Quem?

O que são as Feiras do Livro (de Lisboa e Porto)?

Fundadas em 1931, as Feiras do Livro estavam inseridas numa sociedade bastante diferente, num mercado bastante mais incipiente, enfim, num «mundo português» de que alguns se recordam e outros, quiçá felizmente, não.
Apesar de ser um evento de carácter popular, a Feira acabava por dirigir-se a um público seleccionado da nossa sociedade (que mais não seja, ao reduzido número de letrados de então), concentrando-se nas duas principais cidades do país, Lisboa e Porto.

Segundo as entrevistas e comentários que ao longo dos anos foram saindo para o público, as Feiras são diferentes coisas para diferentes grupos de pessoas.

Quem?

Tratando-se de um fenómeno do Mercado do Livro, os seus principais impulsionadores acabam também por ser os agentes da Indústria do Livro, facto bastante curioso e pertinente, tendo em conta a divisão da APEL por motivos também relacionados com essa divisão orgânica de interesses.
Temos então que estabelecer diferentes objectivos para o Mercado do Livro e para a Indústria do Livro.

Também envolvidos nestes eventos, que são as Feiras do Livro, estão as Autarquias e a Administração central, nomeadamente os ministérios que tutelam os agentes envolvidos ou cuja acção intersecta o evento com os seus objectivos (como o Ministério da Educação, por exemplo).
Naturalmente, estes intervenientes terão objectivos diferentes dos dois primeiros, que mais não seja pela natureza e motivações das suas organizações.

Outros intervenientes importantes, cuja acção (ou inacção) se vê apontada consoante o trabalho que realizam em torno deste evento, são os meios de comunicação de massas, com objectivos que são, claramente, diferentes dos objectivos de todos os acima referidos.

Por fim, e de extrema importância, os frequentadores/consumidores/interessados, com objectivos díspares entre si, dada a abrangência do grupo em questão, poder-se-iam dividir os seus interesses entre os «habituais consumidores de livros» e os «não habituais consumidores de livros».

O quê para quem?

Para o Mercado do Livro, onde genericamente nos referimos a todos os agentes que se envolvem na comercialização do produto livro, desde os agentes da distribuição e logística, passando pelas áreas comerciais das editoras e acabando nos múltiplos e diferentes canais directos e indirectos, a Feira do Livro tem implicações na sua acção empresarial e organizacional.

Para as distribuidoras, habituais participantes de relevo das Feiras em questão, este é um evento que lhes permite fazer venda directa ao consumidor, assim como auxiliar na gestão dos fundos em armazém. Dessa forma, conseguem retornos financeiros maiores e percentagens mais aprazíveis nas vendas.
Os seus objectivos são puramente comerciais: mais vendas gerais, ou venda de determinados títulos.
No entanto, os meios humanos e financeiros que é necessário disponibilizar para estes eventos prejudicam a acção de distribuição nos restantes canais.
Existe aqui um conflito de interesses, pois a acção prejudica a sua relação com os seus clientes e, simultaneamente, reduz o nível de vendas dos seus clientes, prejudicando-os também. De realçar que esse conflito varia com o género de produtos/editoras e clientes das referidas distribuidoras, pois uma grande distribuidora que represente editoras mainstream de grande saída no mercado geral, redes livreiras e hipermercados pode ver os seus resultados fortemente reduzidos com as Feiras do livro, enquanto uma distribuidora de pequenos editores de nicho, com produtos seleccionados, pode ser extremamente beneficiada com a colocação em destaque de produtos que habitualmente não figuram em catálogo.

Para os canais de venda, como as livrarias tradicionais, o bom resultado de um evento desta natureza afecta os espaços da área de influência do mesmo. Dessa forma, uma livraria de Lisboa e Porto pode ver os seus resultados fortemente abalados por três semanas de pouca actividade comercial, resultado esse potenciado com o mau serviço que, inevitavelmente, lhes será prestado pelos seus fornecedores (editores e distribuidores), desviando lançamentos e novidades, não fazendo reposições ou colocações atempadas, por exemplo.
No entanto, para alguns espaços livreiros fora da área de influência, o destaque que a comercialização de livros tem na comunicação pode trazer clientes não habituais ao seu espaço de venda. O mesmo se passa com alguns canais não ortodoxos de venda, como as páginas de Internet, que aproveitam o mediatismo para rentabilizar o negócio, oferecendo as mesmas condições de comercialização, sem os inconvenientes habituais da Feira do Livro.

(a continuar)

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 01:31 PM | Comentários (0)

Exemplo apresentado por Francisco José Viegas

No seu blogue, FJV contribui com o exemplo da «maior feira do livro 'a céu aberto' de toda a América Latina».
Um excepcional exemplo de integração na cidade de Porto Alegre, no Brasil.

Ler aqui

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:16 AM | Comentários (0)

Off the record 2

Artigo-entrevista interessante que saiu no jornal El País ao editor e autor alemão Michael Krüger.
A ler no blogue de George Cassiel.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:06 AM | Comentários (0)

Texto de Carlos Nuno

Pois é, a Feira do Livro de Lisboa foi muito, muito má, sem qualquer atractivo para lá da manada de vacas inertes, com uma única e ridícula barraca da organização plantada no topo do Parque - que bem que calhou a todos os [...] que usaram o metro do Marquês e queriam uma planta do estendal de barracas! -, com banda sonora seleccionada pela sociedade recreativa, desportiva e excursionista Que-faço-eu-aqui, sem lançamentos de livros que valessem a pena a deslocação, com os autores presentes a torrar, tristes, em esplanadas manhosas à espera do ocasional autógrafo, com para aí metade das barracas ocupadas por não-editoras e por não-livros (quero lá saber se são sócios da APEL...), etc. e tal.

Mas, digam-me lá, em que outro local seria possível assistir ao casal em passeio que olha para as capas (fracotas...) de umas obras completas do Miguel Torga e exclama (ela) «ui», [...] rematando o cavalheiro, entendido em pormenores, «e calçava 45!»

Pimba, mais um autor eliminado nos oitavos de final. Para o ano há mais!

Sublinhados nossos

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:48 AM | Comentários (0)

Texto de Mónica Granja

Nos últimos anos, tenho ido à Feira do Livro do Porto várias vezes, tentando fazê-lo em dias em que haja um bom programa no café literário, o que implica programar a minha vida com antecedência. Em geral gosto dos programas que, na aridez que é o Porto em matéria de conversas à volta de livros, me entusiasmam q.b.

A principal razão pela qual este ano só lá fui uma vez (e a correr) foi o facto de o programa só muito tardiamente (a meio da feira) estar disponível online no site da APEL, não permitindo que me tivesse organizado de outra forma.

Sublinhados nossos

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:44 AM | Comentários (0)

junho 26, 2006

Off the record

A Bertelsmann, via Random House UK, acaba de anunciar a compra da BBC Books, editora reputada de livros de não-ficção, com autores como David Attenborough.
Com a incorporação da mesma no agrupamento Ebury, a Bertelsmann continuará a disputar o posicionamento com Hachette Lagardére no mercado Inglês.

Via PN

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 07:19 PM | Comentários (0)

Enquadramento

Como elemento de consulta para a realização dos Posts, disponibilizamos o enquadramento legal da comercialização de livros nas Feiras do Livro de Lisboa e Porto:

[sic - sublinhados nossos]
LEI DO PREÇO FIXO DO LIVRO
(Decreto-Lei n.º 176/96, de 21 de Setembro, modificado pelo Decreto-Lei nº 216/2000, de 2 de Setembro)

Artigo 14º Ocasiões especiais

1 – Exceptuam-se da aplicação do preço fixo as vendas de livros feitas por qualquer entidade no decurso de iniciativas de incentivo à leitura e à promoção do livro, em feiras do livro, congressos ou exposições do livro ou em dias especiais dedicados a assuntos de natureza cultural, desde que tais iniciativas decorram em períodos de tempo previamente determinados, não superiores a 25 dias por ano por iniciativa, as quais poderão beneficiar de um preço de venda ao público compreendido entre os 80% e 100% do preço fixado pelo editor ou importador.
2 – Para os efeitos do disposto no número anterior, considera-se que somente é permitida a cada entidade actuante no mercado do livro a realização de iniciativas que perfaçam, em cada um dos estabelecimentos ou sucursais, o prazo estipulado, excepto se estas forem da responsabilidade dos organismos representativos dos editores livreiros.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 03:03 PM | Comentários (0)

junho 25, 2006

Call to Posts

Inaugurando uma nova modalidade, a Extratexto vai dedicar os próximos 15 dias, em exclusivo, a uma temática.

Quaisquer outros assuntos terão de ser abordados posteriormente ou nos diversos sítios da nossa blogosfera, e somente notícias de alto valor serão colocadas no blogue.

Acabadas as Feiras do Livro de Lisboa e Porto, a Extratexto retoma o conturbado tema e lança um Call to Posts, que o mesmo é dizer: um pedido de participação a todos os interessados com o envio de um texto sobre o tema para o nosso email.

Tentaremos abordar diversos prismas, intervenientes, visões e opiniões, com o objectivo de alcançar uma reflexão sobre os problemas de fundo do modelo actual da Feira do Livro, da conjuntura em que está inserida, do modo como tem vindo a evoluir, ou outros assuntos que, certamente, nos recordarão.

Esperemos que, no final destes 15 dias (até ao dia 10 de Julho), tenhamos conseguido limpar algum do pó que, permanentemente, se levanta ao entrarmos na FEIRA DO LIVRO.

Regras de uso
Todos os textos enviados que abordem a temática serão publicados.
Só serão aceites textos assinados. Caso seja requerido anonimato ou pseudónimo, o mesmo será dado.
Os textos serão revistos ortograficamente antes da publicação.

Agradecemos toda e qualquer divulgação feita (em blogues ou noutro meio) que possa aumentar o número de participações nesta discussão.
O convite estende-se, naturalmente, aos nossos amigos da Hispania Citerior, cuja visão externa e comparativa beneficiará a nossa discussão.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 05:10 PM | Comentários (0)

junho 21, 2006

Adaptar, Adaptar, Adaptar?

Tendo as edições universitárias sempre sido o orgulho e berço de muitas potências editoriais (como a britânica ou alemã), é natural que nos doa bastante observar que esse egrégio exemplo de qualidade e rigor comece agora a sofrer as dores das novas tecnologias, e vozes se levantem dizendo: Adaptar!

Adaptar? Sim, de facto, mas não pelos melhores motivos.
Assim se vai a Glória do Mundo e a das grandes marcas editoriais universitárias, também.

Para evitar confusões, realço que não me refiro ao processo de digitalização nem ao Open Access, onde se pretende tornar gratuito o acesso a conteúdos essenciais ou investigações pagas pelos Estados. A Extratexto apoia incondicionalmente o movimento Open Access e faz votos para que a Recomendação do Parlamento Europeu seja correctamente implementada.
Referimo-nos, isso sim, à sistemática recusa que os novos públicos universitários e pré-universitários fazem dos brilhantes e trabalhosos conteúdos que as Universitárias lançam para o mercado: as Obras de Referências.

Segundo o tão incrivelmente reputado The Chronicle (e faço ver que é já a segunda vez nos últimos meses que abordam esta temática), as devoluções deste género de obras começam a tornar insustentável este tão rigoroso e complicado trabalho, que só estas editoras conseguem fazer, e tudo... por causa da Internet.

Segundo estudos recentes, os novos estudantes nasceram com o fácil recurso à Internet e vêem nela a solução para todas as suas dúvidas e problemas. Se não sabem algo, «googlizam», se precisam de algum conhecimento, «wikipam», e por aí em diante.
De facto, os novos estudantes não têm a noção do nível de cuidado que muitos dos conteúdos online oferecem, desconhecendo a quantidade de trabalho e de mediação que é necessário para que algo seja considerado confirmado (quer linguisticamente quer pelos pares) e acreditam piamente que o primeiro (e único) recurso para uma investigação científica é a Internet.
Não retirando o valor (por vezes, extraordinário) que algumas páginas de Internet têm e o grande auxílio que a mesma oferece, é de lembrar que o Google não permite fazer uma triagem por índices de credibilidade e rigor...

O resultado?
Bom, Theodor Adorno escreveu um óptimo texto denominado «Teoria da Semi-Cultura» e se o leram com certeza saberão os resultados.
Como resultado adicional, vemos as Obras de Referências a perder as referências do mercado, descapitalizando um segmento que muito alegra (e faz inveja a)os verdadeiros apaixonados pelo bom trabalho editorial.

Para mais informações, vejam os textos que têm surgido em algumas páginas como n'As Bibliotecas

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 06:18 PM | Comentários (0)

junho 20, 2006

Vending

Agora que o Governo decretou o fim das máquinas de vending para tabaco, descubro que as mesmas também servem para outros fins (excluindo doces e bolos com semanas de exposição).

Vejam aqui este magnífico exemplar (Chile).

Espero que estes não sejam só para maiores de 18 anos.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:46 AM | Comentários (0)

junho 19, 2006

2,6 milhões de portugueses leram livros em Maio, parte 2

Como resposta ao post do dia 14/06:

«Li na Extratexto a referência ao estudo anual da Marktest sobre o perfil do consumidor de produtos de media.
O resultado relativo aos leitores de livros para 2005 de 31,4% não me parece nada entusiasmante.
Em termos comparativos, tendo presente o ano de 1995 (
vd. Hábitos de Leitura. Um Inquérito à População Portuguesa, p. 112), apurou-se então o seguinte:
20,8% dos inquiridos a declararem estar a ler no momento e 10,6% a dizerem ter lido o último livro há mais ou menos um mês, portanto, no total, 31,4%

Ora, onze anos são passados e a estagnação parece ser o diagnóstico provável.
O exercício comparativo vale o que vale, é uma mera indicação pouco consistente, mas em todo o caso não se vê que o «progresso» seja coisa garantida apesar do disparo da compra.
Perante isto, vale perguntar: estarão os livros para muitos portugueses na categoria de objecto sumptuário?
»

Eduardo de Freitas
Professor e sociólogo do Livro e da Leitura

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 05:28 PM | Comentários (0)

Livros de Areia

Porque ainda existem bons projectos editoriais a surgir em Portugal, a Extratexto dá as boas-vindas à editora Livros de Areia (desde 2005 no mercado).

A Livros de Areia, cujo o nome se associa ao seu primeiro livro «Em busca do Livro de Areia & Outras Histórias», de Rhys Hughes (obra bastante bem trabalhada pela imprensa), surge com um projecto que parece estar bem definido à partida.

Começamos por evidenciar a sua «mission statement», rara e bem feita para o nosso mercado: A Livros de Areia assume uma busca das soluções editoriais mais adequadas ao mercado, em moldes não muito distintos de uma smallpress anglo-americana, procurando uma relação muito directa e versátil com os leitores, os media e os livreiros, e apostando em conteúdos de qualidade.
Este instrumento essencial de estratégia parece estar a ser cumprido por João Seixas e Pedro Marques, apostando em formatos simples, com design bastante interessante e revivalista que contrasta positivamente com as obras publicadas (à semelhança de muitas obras da Cavalo de Ferro). É igualmente um bom indício o cuidado que observamos na introdução de pequenas mais-valias editoriais para o mercado português (de realçar a nota etimológica do Prof. António Marques na obra «Da Treta»), assim como a manutenção de um ritmo simples mas fiável que lhes permite não se precipitarem no mercado sem terem grande capacidade instalada.

Sabendo que este é um mercado «canibal», onde é muito fácil entrar mas quase impossível ficar (como dizem vários editores), confessamos que - contrariamente a muitos projecto - acreditamos que esta seja uma editora que lentamente se vá afirmando, quer pela óptima e singela forma como começaram, quer por pequenos detalhes estratégicos e de criação de plataformas directas de comunicação que nos permite detectar algum conhecimento ou instinto para a publicação.
Gostamos particularmente da intenção expressa pelos editores de tentar manter um reduzido nível de stocks através da PoD, embora salientemos que o problema do excesso de stocks não se resolve com um just in time de distribuição. O principal problema do stock na edição prende-se com o estabelecimento de uma R&C inicial que lhes defina cronograficamente uma tiragem e lhes indique qual o formato de produção mais adequado, assim como o mix de canais a utilizar para evitar disseminação na colocação em lugares mainstream de elevada devolução. Nestes casos, a Extratexto aconselha que desenvolvam mais os canais directos de comercialização e encontrem parcerias, aumentem os postos de venda pessoal, a colocação na Internet e outros formatos de venda mais directa antes de arriscarem obras mais mainstream que necessitam de circuitos e plataformas comerciais mais complicadas (como a obra do Galeano).

Igualmente, queremos deixar expresso que necessitarão ter algum cuidado adicional (ou encontrar alguém habilitado para isso) ao nível da coordenação de conteúdos que lhes garanta um nível de fiabilidade superior para manter a imagem de qualidade.

A Extratexto promete seguir atentamente este interessante projecto.

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junho 17, 2006

Bertelsmann quer comprar Bertrand Livreiros

Segundo o semanário Expresso, os alemães de Bertelsmann AG (Random House - Transworld), o maior grupo editorial mundial e um dos primeiros grupos internacionais a entrar em Portugal, onde desde há muito detêm a editora Temas & Debates, Círculo de Leitores e Printer Portuguesa, entre outras participações, pretendem agora adquirir a principal rede de livrarias nacional, Bertrand Livreiros.

Caso essa compra seja confirmada, o influxo financeiro que a rede terá permitirá à Bertrand consolidar e impulsionar a política de expansão nas cidades médias sem ter tantos problemas de tesouraria, completando o ambicionado anseio dos editores de desenvolvimento do mercado do livro fora dos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto.

No entanto, e dados os planos de crescimento da rede Bertrand em Portugal, que com as suas 47 lojas já detém, aproximadamente, 12% da share de facturação de livros (no total dos canais), a existência de um parceiro com tão grande força no mercado - em especial no mercado mainstream e nos circuitos de grande fluxo - poderá suscitar problemas de concorrência.

A pergunta que permanece agora na cabeça da Extratexto é: Quanto tempo demorará a Bertrand a criar a sua primeira Megastore em Portugal?

O tempo dirá.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:00 PM | Comentários (0)

junho 16, 2006

«Guerra da Relva»

Desde a BEA (BookExpo America) que se tem lido e falado um pouco sobre a nova «Guerra da Relva» que coloca em dois campos opostos a indústria editorial inglesa e a americana.

Em cima da mesa, ou em cima da relva, estão questões relacionadas com os direitos de comercialização de obras em língua inglesa fora dos respectivos mercados, em particular no «Continente», isto é, nos países continentais da União Europeia.

Os editores ingleses estão chateados com a capacidade que as editoras americanas conseguem ter, colocando obras de língua inglesa no mercado europeu a preços muito mais competitivos do que qualquer editora britânica. Referem-se em especial à excepcional capacidade concorrencial das megalivrarias online, assim como antecipam as alterações que a impressão digital e a Print on Location (associada à Print on Demand) poderão trazer ao mercado.
Não contentes com essa «distorção» concorrencial, os editores ingleses pretendem agora exigir direitos de exclusividade comercial de obras em língua inglesa no espaço continental europeu.

Naturalmente que os EUA consideram essa exigência como disparatada e anticoncorrencial, assim como muitos dos armazenistas e distribuidores europeus que preferem continuar a comprar produtos num mercado livre a preços mais competitivos.

Uma outra questão que está em cima da mesa é a extensão dos chamados direitos de publicação, que no mercado anglófono podem representar parte importante nos resultados finais de publicação de uma obra.
A título de exemplo, questionam se uma obra primeiramente publicada no mercado inglês pode ser vendida para publicação no mercado americano e comercializada no espaço europeu a preços bem mais competitivos, prejudicando a exportação do livro original inglês. Apesar disso, nenhuma editora está interessada em incluir cláusulas de restrição geográfica, com medo de prejudicar ou desvalorizar o negócio.

Como Portugal não pertence à Commonwealth, nem o Reino Unido é a OMC (WTO), considero pessoalmente que o Reino Unido não tem qualquer legitimidade para considerar a UE como a sua área exclusiva, nem decidir o nosso nível de acesso a produtos de países terceiros.
Enquanto cidadão de uma comunidade criada para abolir barreiras e entraves ao comércio livre, não observo com bons olhos a pretensão de um dos seus membros de querer criar novas barreiras com o intuito de defender os seus interesses pessoais. Agrada-me a possibilidade de poder comprar livros num mercado online, podendo aproveitar o facto de o dólar se encontrar desvalorizado face ao euro (ou à libra esterlina) para adquirir livros mais baratos. Se isso não lhes agrada, lamento.

Nota: A expressão «Guerra da Relva» (turf war) é utilizada com intenção jocosa e tem a sua origem no embate desportivo (futebol americano), representando o confronto entre duas partes interessadas em garantir o controlo (ou acesso) de uma área (recursos ou capitais), i.e. um mísero pedaço de relva.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:22 PM | Comentários (0)

junho 15, 2006

Publicação Precoce

Se na edição portuguesa existisse um só problema crónico, esse poderia ser o da Publicação Precoce. A Indústria está cheia de editores com a ânsia de encurtar os prazos de edição/produção – muitas vezes impulsionados por forçadas e pouco profícuas necessidades eventuais ou pelo rápido aproveitamento de oportunidades – julgando que, dessa forma, conseguirão obter rapidamente ao retorno necessário do investimento.

Erro crasso!
Como em todas as analogias possíveis, a Publicação Precoce não potencia o resultado final e até o prejudica, pois não tem em consideração coisas tão óbvias como os parceiros.

Não querendo deixar de referir as necessidades de tempo para que qualquer produto saia com a qualidade mínima, reconheço que a capacidade de reacção às oportunidades de mercado é importante e necessária, mas é também previsível e antecipável – se uma oportunidade não fosse previsível, ninguém a conseguiria aproveitar e gerir, logo, não seria uma verdadeira oportunidade.
Prefiro assim começar por dizer que o mercado editorial é fortemente competitivo, existindo uma grande dependência de alguns parceiros comerciais que influenciam terminantemente os resultados finais de qualquer produto. Consequentemente, o único modo de obter resultados satisfatórios será nadar a favor da corrente ou tendo em conta o modo como a corrente flui.

Neste, como em todos os negócios, os clientes têm sempre razão, e quando os clientes principais não são os clientes finais, a razão torna-se obrigação, pois uma livraria tem objectivos e necessidades a cumprir, tem campanhas e programas delineados, tem programações e ideias próprias do que pretende fazer e vender. Dessa forma, nenhum editor se pode dar ao luxo de não ter em consideração as necessidades dos seus clientes e, pura e simplesmente, fazer um produto e «forçar» a aceitação do mesmo nas livrarias.

Por que irão as livrarias aceitar um livro que não pediram?
Não têm de aceitar! Melhor, se fizerem um bom trabalho, não devem aceitar.

A única forma de uma editora garantir a necessária aceitação e sinergia do mercado é através da planificação cuidadosa da produção. Um editor tem de trabalhar com a antecipação suficiente para que a Data de Publicação da obra coincida com as necessidades do mercado.
Uma planificação correcta da programação (teoricamente aconselham-se os cinco anos para desenvolvimento de objectivos; três anos para desenvolver os produtos; um ano para produzir e colocar os livros) permitirá criar a expectativa necessária à chegada dos livros, havendo antecipação suficiente para comunicar aos parceiros os produtos que irão sair no ano seguinte, permitindo-lhes programar a época com bastante antecedência (preparando catálogos, garantindo destaques e campanhas, promovendo e organizando eventos, etc.).
Essa comunicação permite igualmente que os parceiros participem e auxiliem na programação, propondo determinados segmentos ou obras que queiram ver desenvolvidas, outras possibilidades gráficas (linha gráfica de capas, por exemplo) e outras que farão os canais de venda envolver-se no processo de edição do livro e, assim, apostar de forma particular na sua comercialização.
Igualmente, um produto planificado com antecedência, tendo em conta tendências e oscilações de segmentos e autores, assim como eventos de grande monta preexistentes, e com pleno conhecimento e envolvimento do livreiro, permitirá garantir pré-venda e colocação suficientes no exacto momento em que é publicado, rentabilizando a obra de imediato.

Não é coincidência que o livro seguinte de Harry Potter venda mais do que o anterior!, é preparação do mercado.

O vosso principal cliente é o livreiro, o seu principal cliente é o leitor.
Não queiram fazer vossa a função que lhes pertence, pois a experiência que o livreiro tem em termos de responder às necessidades do público é muito superior à de qualquer editor, e é nela que se devem apoiar.
Um mau relacionamento com o vosso cliente, quer pela prática de «impingir» todo o tipo de livros de que ele não necessita, quer pelo mau serviço de entrega, reposição ou não aceitação/atraso nas devoluções, estará a prejudicar o trabalho dos livreiros e o seu resultado financeiro, prejudicando, igualmente, a relação construída, a vossa credibilidade e o retorno (quantidade e prazos) dos resultados financeiros obtidos.

A necessidade do livreiro é por demais evidente e fácil de escutar: como vocês, eles querem vender livros.
Por isso, respondam ao vosso cliente da melhor forma possível.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:20 PM | Comentários (0)

junho 14, 2006

2,6 milhões de portugueses leram livros em Maio

Via Jornalismo e Comunicação, um estudo de mercado da Marktest relativo aos hábitos de leitura de livros, no mês de Maio.

Faço notar que o estudo abrange somente leitores (i.e. alfabetizados), em Portugal Continental, com 15 ou mais anos, à semelhança do estudo realizado em 1995 por Eduardo de Freitas, José Luís Casanova e Nuno de Almeida Alves (Hábitos de Leitura – Um Inquérito à População Portuguesa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1997), pelo que poderá ser cruzado com algum interesse.

Ver aqui


Publicado por Nuno Seabra Lopes às 07:27 PM | Comentários (0)

A Responsabilidade dos Livros

Continuando uma conversa iniciada por Francisco José Viegas, seria interessante desenvolver a temática numa perspectiva editorial (e não só do leitor).

Independentemente da responsabilidade legal que a Lei do Consumidor determina, é sabido que a «regra de ouro» da criação de uma marca nos domínios político-culturais passa pela Credibilidade.
Credibilidade é, neste sentido, comunicar (através de uma política de comunicação, de acção e de produto) que aquilo que fazemos é aquilo que dizemos, na altura em que dizemos e como dizemos. Em suma, é fazer com que as pessoas acreditem naquilo que está a ser dito, pois temos por hábito cumpri-lo.

Também, por um lado, o editor, enquanto gestor privilegiado de comunicação e cultura, tem um papel importante pois gere o fornecimento daquele que é considerado o instrumento essencial à aprendizagem da língua e à literacia ao longo da vida, o Livro.

Por outro lado, e exceptuando os livros de carácter prescritivo – como o livro escolar, por exemplo – os produtos culturais necessitam constantemente de justificar a sua procura, criar necessidades para que os produtos possam querer ser consumidos pois, apesar de o Estado considerar os livros um bem de primeira necessidades, eles são-no do ponto de vista social e não individual – pelo que essa necessidade pode não ser sentida directamente pelo consumidor durante toda a sua vida.

Se descontarmos agora os elementos de carácter positivo referidos acima (que por vezes parecem não ser suficientes para convencer alguns iditores – diabo para as gralhas! – de livros a quererem ser editores), assim como a necessidade de criar produtos pensados na óptica do consumidor, observemos agora que o mercado é extraordinariamente responsabilizador do editor e, se mais não é feito, deve-se também ao facto de o não ser exigido.

Ao contrário dos mercados de todos os outros produtos, a edição de livros faz recair sobre o editor toda a responsabilidade perante os livros publicados. A diferença existente neste mercado é que o direito de devolução é total e constante por parte dos canais, que funcionam por consignação (caso não vendam os livros, devolvem e recebem o valor de volta, nunca perdendo o dinheiro).
O funcionamento do mercado é de tal forma comercialmente cruel que muitas livrarias «compram» livros pagando com a devolução de outros livros (da mesma editora ou distribuidora) que não foram vendidos, sendo esse também um dos motivos para a grande rotatividade dos produtos.

Nesta perspectiva, nenhuma livraria (desde que com recibo) recusa a devolução de um produto danificado, pois o prejuízo não recai sobre a livraria, podendo esta última devolver o produto danificado ao editor.
Em muitos casos, como na Fnac, é permitida a compra e devolução de livros incólumes num prazo de 15 dias, funcionando como biblioteca de novidades para quem necessita de consultar determinada obra.

Apesar de considerarmos esta regra do mercado bastante abusiva, pois um parceiro comercial deve co-responsabilizar-se pelo produto que comercializa, a verdade é que as questões referentes à qualidade do produto dizem respeito exclusivo à editora (pois a sua função é dar mais-valia a um original, podendo essa mais-valia ser o design, o trabalho editorial ou a qualidade do produto, por exemplo).

Exactamente por esse motivo é que todos os trabalhos efectuados são controlados através de contratos e fichas de obras que definem as necessidades de qualidade do produto. Assim, uma editora pode devolver sem pagar uma tradução que considere má, ou uma capa que não agrade; pode obter o ressarcimento dos livros mal impressos; exigir uma nova revisão a um trabalho de revisão mal feito; etc.

Por vezes essa responsabilidade vem já de trás, dos contratos celebrados com os autores ou agentes, onde se especificam níveis de exigência determinados como o destaque da tipologia do título ou de autor, o uso de determinados elementos, grafismos ou materiais, a garantia de conformidade com a legislação local (não vá o agente ser imolado porque um editor resolveu publicar os Versículos Satânicos no Irão!), a aprovação do texto final, etc.

Dessa forma, é ao editor que cabe decidir o nível de qualidade e exigência de que necessita e, se os consumidores não se fizerem ouvir, muitos editores continuaram a «poupar» na qualidade julgando que, como se diz na minha Invicta terra natal:
«Para quem é, bacalhau basta».

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:08 PM | Comentários (0)

junho 13, 2006

Frase do mês

«Publishing and being a publisher, however, are not necessarily the same.»

Jan Nathan
(directora da Publishers Marketing Association - EUA)

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 03:57 PM | Comentários (0)

junho 09, 2006

Autor, autor.

Se há coisa que a maioria dos editores não gosta é de autores.

Não falo de autores em específico, mas de «autores» de uma forma em geral.
A relação autor/editor é – necessita de ser – problemática, cheia de amor e ódio; uma viagem num barco onde os dois necessitam salvar-se e onde cada um rema para o lado contrário, convictos de que eles é que sabem onde está a terra que os irá salvar.
É por isso que todos os editores que lidam durante muitos anos com os mesmos autores acabam odiando-se ou adorando-se. O caso é de tal forma problemático que o grande conselho que qualquer editor poderá dar a um jovem autor é: se querem ver o vosso livro publicado, não insistam em marcar uma entrevista.

Pelo sim, pelo não, aconselha-se a todos os editores a precaução saudável de detestarem todos os autores, até sucesso em contrário.

Mas tudo, afinal de contas, passa por questões de protocolo. De ambos terem bem estabelecidas as regras que gerem a passagem de um produto artístico (ou quase), como o manuscrito, para a sua versão industrial.
Nessa comunicação falha o facto de a maior parte dos escritores não compreender que um produto industrial como o livro necessita de ter características diferentes do original, presumindo que aquilo que fizeram é «a obra» que, naturalmente está bem como está – e se necessita de ser alterada, terá de o ser pelo «artista». Na melhor das hipóteses, o editor será aquela figura a quem competirá fazer aquilo que o autor não consegue, ou seja, colocar a «obra» num formato de livro, arranjar uma capa «engraçada» e colocar a «obra-livro» em todo o lugar para que o autor possa mostrá-la e receber os poucos royalties que até dão algum jeito ao final do ano.
E para conseguirem isso, chateiam o editor por tudo e mais alguma coisa, reclamando de tudo o resto que se esqueceram de chatear.

Para o editor, no entanto, o autor é – suspiro – «aquilo que vem a atrapalhar o manuscrito». Um original para o editor não é «uma obra de arte», bem pelo contrário, é uma matéria-prima que necessita de ser transformada para se criar um bom livro, um produto pensado para um público, de que as pessoas gostam e que queiram comprar. Para se conseguir isso é, por vezes, necessário muito trabalho de modo a se conseguir fazer um bom livro de um bom manuscrito.
Na cabeça do editor passam outras coisa em que o autor não necessita de pensar, desde logo, em gastar somente o dinheiro que sabe que conseguirá recuperar, ideia que se ouve repetidas vezes na frase mais dita pelos editores em Portugal: «Eu não sou a Santa Casa da Misericórdia».
Depois disso, é preciso pensar no público-alvo, no público fidelizado pela editora, nas tendências de publicação, nas oportunidades, no catálogo da editora, na imagem de marca, nas necessidades que o livro poderá ou não satisfazer, nas características necessárias à máxima rentabilização da obra, na forma como o mercado funciona, etc.

E o editor sorri e, rabiscando cornucópias, diz ao autor «claro que sim, não se preocupe», desliga o telefone e dá indicações de que para a próxima ele foi para a Feira do Livro de Kuala Lumpur, deixando o pobre do assistente editorial com a tarefa ingrata de, rabiscando cornucópias, dizer «claro que sim, não se preocupe que eu digo ao editor».

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:24 PM | Comentários (0)

junho 07, 2006

O Papel do Livro

Parece que em outros meios, mais anglicizados, já algo foi decidido sobre o futuro do livro. Para muitos dos opinion leaders da edição e das indústrias culturais que se debruçam sobre este assunto é ponto assente que «o livro pode ser bastante mais se for bastante menos».
Frases destas, descontextualizadas, poderão fazer-nos pensar em paradoxos (ou jogos retóricos de linguagem), mas o pensamento por detrás tem a sua razão de ser, senão vejamos.

Nesta nossa emaranhada sociedade de informação, assente no registo, é sabido que tudo o que é importante tem de ser escrito, assim como se torna necessário escrever para que algo se torne importante (ou assim parece). O resultado é uma sociedade que aparenta querer passar tudo por escrito, e que depende do escrito para a evolução da espécie e sabedoria humanas.
No entanto, nos últimos anos algumas vozes vêm-nos dizendo que isto não pode continuar assim, que o ser humano é dotado de outras capacidades e sentidos que permitem diferentes formas (mais apropriadas) de registar e transmitir informação, de ensinar e entreter, assim como conseguir um maior democratismo no acesso à cultura. Nada disto será novidade para o leitor. Falamos dos audiovisuais e das possibilidades crescentes que os meios informáticos nos oferecem, onde se começa inclusive a jogar com percepção e dimensões só existentes numa linguagem não humana (informática).
Sim, de facto muitas dessas formas são mais apropriadas para substituir o livro em muitas das suas funções, como se viu num exemplo anterior (ver post dia 29/05/2006). No entanto, saber isso não é fazê-lo e só muito lentamente se vão processando as alterações necessárias para terminar com alguns dos materiais escritos que não necessitam de o ser. E, se elas não forem feitas, aqui voltaremos mais vezes para continuar a falar do fim do livro.

«É preciso parar de fazer livros que não precisam de ser livros», dizia-nos o jornal The Times, em Fevereiro passado.
Dissertações e artigos científicos têm mais a ganhar mantendo-se em formatos digitais, assim como dicionários, enciclopédias e outras obras de referência. Os livros escolares deviam igualmente passar a ser digitais (um computador por carteira de escola seria algo a pensar para slogan do Governo), instalados nos servidores das escolas e com acesso LAN e WAN aos alunos. Imaginem o que os livros práticos teriam a ganhar com gráficos animados e acesso a bases de imagens ou explicações áudio, assim como ganhariam imenso os livros de auto-ajuda e religião com música a condizer e vídeos inspiradores.
De facto, até que ponto será justo (ou rentável) obrigar os fãs de Tina Turner a lerem a sua biografia, quando eles tanto apreciam a sua voz e imagem? Na minha opinião, preferia vê-la e contar a sua própria história, misturada com canções, entrevistas, vídeos, etc., num emocionante relato vívido e pessoal. Pelo menos tinha a certeza que aquelas eram as suas palavras e não o texto de um qualquer ghostwriter que passou «em belas letras» a sua vida para as duas dimensões do papel.

Façamos do impresso a excepção, o símbolo da qualidade. Pensemos em fazer livros que mereçam ser guardados e não acabarem de capas rasgadas ao fim do ciclo mínimo de vendas. Com bons materiais e óptimo trabalho editorial, talvez assim os livros possam continuar a ser úteis à sociedade durante mais alguns anos.

P.S.
António Guerreiro (sociólogo e crítico do Expresso que bastante aprecio) falava-nos da redução real da oferta e do estreitamento dos segmentos de publicação (apesar do aumento dos livros publicados). Acrescentaria às suas palavras uma nota de preocupação: o verdadeiro problema não é o estreitamento, mas sim os livros seleccionados para esse estreitamento, aqueles que, como nos dizia Nelson de Matos, têm a data de validade de um iogurte – ou da moda.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:09 AM | Comentários (0)

Vitrúvio

Porque ainda dá prazer editar em Portugal, a Extratexto aplaude a mais que centenária (e lindíssima) Sociedade de Geografia de Lisboa, assim como o Prof. Manuel Justino Maciel (Univ. Nova), pela publicação da opus major de Vitrúvio «De Architectura» (Edições do IST).

Até hoje, a edição mais acessível da obra encontrava-se publicada, na sua totalidade, pela reputada Cambridge University Press.

Esta será, muito provavelmente, a principal obra a ser editada este ano em Portugal.

Notícia do Diário de Notícias

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 09:21 AM | Comentários (0)

junho 03, 2006

Talheres de Ofício 2

Mais do que programar um livro para ser lançado na época apropriada, um editor deve saber quando a concorrência está a programar lançar os seus livros.
Não que eles possam, de alguma forma, concorrer com as nossas obras, é exactamente ao contrário...
A força promocional de certos produtos, e a necessária criação de expectativa no mercado, gera um fluxo predeterminado de clientes aos pontos de venda, auxiliando a estratégia de publicação ou comercialização de uma obra.

Isto é...
Se se souber que a Presença irá lançar o próximo Harry Potter na segunda quinzena de Outubro (sim, é essa a data habitual), isso significa que a partir dessa altura haverá um incremento particular de público em segmentos como:
– Infantil (quem compra o Harry Potter para um filho tenderá a comprar outro para um filho mais novo)
– Educação
– Referência e Escolar (deve ser pelos problemas de consciência ou pela oportunidade)
– Ficção (já que os pais lá estão... já agora aproveitam)

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 05:08 PM | Comentários (0)

Hiper-prémio

Acabo de ler que foi atribuído um prémio denominado «Meu 1.º Best-Seller» ao estreante Rui Vicente. Não conhecendo a obra em questão, quero no entanto salientar o excelente júri.
O que quero fazer notar é que o prémio é dado em parceira entre as Edições Asa e o grupo de distribuição alimentar Modelo-Continente.

Confesso que aprecio bastante Manuel Valente, mas parece-me que esta associação reduz o valor perceptivo do produto e traz algumas implicações à marca.

Quando se reduz o valor perceptivo de determinado produto numa acção puramente imediata, anula-se a plataforma comunicativa da editora – ou seja, o poder da marca no processo de comunicação –, e até certo ponto a comercial, reposicionando-se num segmento abaixo que, em meu entender, destrói os anos de trabalho que Manuel Valente dedicou à Asa.
Não seria mais fácil criar um evento com a Modelo-Continente utilizando produtos de qualidade já firmada no nosso mercado, como as obras históricas de João Aguiar?

Para mais informação ler aqui.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 04:35 PM | Comentários (0)

João Rodrigues Abandona Publicações Dom Quixote

Na edição de hoje do jornal Público vem noticiada a demissão de João Rodrigues (editor executivo das Publicações Dom Quixote, responsável pelo segmento de ficção) por motivos pessoais.

Num post anterior a Extratexto referiu o facto de termos reparado que João Rodrigues se apresentava nos últimos tempos «visivelmente embotado por uma atitude algo defensiva de quem (estranhamente) pouco confortável se sente no papel de um profissional de edição» (28/04/2006). Facto esse hoje confirmado pelo próprio, que se diz «desiludido com o actual estado do mundo editorial», sendo que irá «fazer uma pausa para reflexão sobre as actuais condições de funcionamento do mercado dos livros e decidir sobre a sua intervenção futura».

Com isto entende-se que João Rodrigues não abandona o mundo editorial, mas sim opta por uma nova estratégia de actuação no mesmo.

Pergunta:
Quanto tempo demorará João Rodrigues a abrir uma nova editora?

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:37 PM | Comentários (0)

junho 02, 2006

Dúvida

Dada a importância e crescimento do mercado ibero-americano, por que motivo os editores portugueses optam por nunca ir visitar a Feira de Gualajara (México) – a principal feira do livro em língua espanhola – ou a Feira do Livro infantil de Buenos Aires (Argentina) onde poderiam vender direitos, preferindo as feiras de Frankfurt e Bolonha, onde vão para comprar?

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 04:06 PM | Comentários (0)

junho 01, 2006

Discurso de John Updike

Ouçam aqui o discurso que John Updike fez sobre as vantagens das livrarias tradicionais e do «velho» papel impresso, em detrimento dos formatos digitais.

P.S. - O discurso foi transmitido na BEA por Podcast...

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:55 PM | Comentários (0)

Plataformas

Nesta sociedade em que a imagem vale bem mais do que mil palavras – porque as palavras valem pouco – o processo de identificação está mais disperso e organiza-se em torno das imagens com que diariamente somos bombardeados. Dessa forma, perde-se a substância das coisas, a profundidade e, perdoem a palavra, a moral das mesmas. Tudo segue uma lógica fugaz e não pertinente, pois não é esse o seu objectivo.
Antes, podia-se considerar que as coisas eram mais lógicas, quer dizer... para falar de política convidava-se um especialista, assim como para falar de economia ou de moda. Mas hoje, convidam «celebridades», «vedetas» e outras figuras cuja validade se prende com a imagem que transmitem, ou pretendem transmitir. Pede-se a uma «imagem bonita», como uma modelo, para falar de conteúdos cujo conhecimento concreto será tão banal quanto o de qualquer espectador.

Neste sector, também já começam a afastar-se os tempos em que era a capacidade de escrita de um autor que criava o «seu público», que o seguia e era fiel, e que dinamizava e estabilizava o processo de comercialização de um autor, de uma obra ou de uma editora. Hoje em dia, com as novas necessidades criadas, o segredo passa pela «Plataforma».

Chata como uma plataforma consegue ser, ela cumpre de forma bem mais eficaz os objectivos das empresas que as utilizam: o lucro.
Plataforma é a capacidade que determinada figura tem de penetração no mercado, isto é, os meios para se chegar directamente ao público consumidor. Essa plataforma, em geral, congrega vários elementos possíveis que passam pelo mediatismo, ou notoriedade, tempo e nível de exposição mediática, as estruturas promocionais (como páginas de Internet, revistas e jornais disponíveis para promover, por exemplo), a existência de clubes de fãs ou de subscritores directos (DM), as bases de dados ou as lista de contactos úteis para promoção e venda.
Dessa forma, uma celebridade terá, à partida, uma plataforma muito superior do que a de um qualificado escritor, garantindo um sucesso comercial muito superior.

A edição está a tornar-se semelhante a outras indústrias culturais, onde o filme, ou a obra, só avança quando se tiver certezas de financiamento e promoção.

Por isso, antes de criticarem o próximo sucesso de vendas, primeiro tentem percebê-lo e, depois, critiquem à vontade.

Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:28 PM | Comentários (0)