abril 28, 2006
A Tentação de Editar
Na noite passada ocorreu mais uma sessão dos Livros em Desassossego, da Casa Fernando Pessoa, cuja programação poderão confirmar na Origem das Espécies, de Francisco José Viegas.
À parte do programa, importa referir o que ocorreu durante a sessão e as mais pertinentes observações.
Muitos poderiam ter sido os convidados para aquela sessão, onde o tema (a tentação de editar) fazia realçar um pouco aquilo que poderá ser considerado como o natural desvio do editor.
Obviamente mais interessados em apresentar os seus mediatismos, arcaísmos ou excelentíssimas desculpas por exercer uma profissão, a conversa seguiu medianamente dispersa e pouco equilibrada, cujo interesse (ainda que de modo fruste) se centrou na discordância funcional entre Manuel S. Fonseca (Guerra e Paz) e Luís Oliveira (Antígona).
Foi, de facto, o editor João Rodrigues (Dom Quixote) um dos poucos a tentar aflorar algumas das questões que mais poderiam ter sido consideradas pertinentes para quem estava presente, mas ainda assim visivelmente embotado por uma atitude algo defensiva de quem (estranhamente) pouco confortável se sente no papel de um profissional de edição.
Luís Oliveira, cuja visão ecléctica e amadorística fá-lo reconhecer que não se pode considerar um editor, permanece numa óptica peculiar de avaliar o livro, não enquanto receptáculo e transmissor privilegiado de conteúdos com funções educativas e de entretenimento, mas sim como instrumento semi-elitizado cujo uso banal o deverá afrontar, não fazendo livros para mais ninguém excepto ele, enquanto seu próprio leitor, e poucos mais que reconhecem em alguns dos magníficos livros que publica interesse específico. Recusa a existência do livro enquanto livro (isto é, enquanto produto industrial que visa satisfazer as necessidades da sociedade e dos indivíduos, como a própria UNESCO reconhece), mas sim enquanto acção restrita para tentar apertar os atacadores do mundo, desprezando as funções reais do livro e as necessidades de leitura da quase totalidade da população leitora, preferindo (julgo eu) que quem não lê, ou não quer ler, nada «que o eleve», não deva poder ler. Está no seu direito enquanto agente cultural, mas permanece somente como agente cultural (em prol de uma cultura de nicho) e não enquanto profissional de uma indústria que deve pugnar pela qualidade dos produtos que faz e pelo respeito pelos diferentes leitores que tenta conquistar para a leitura (esperemos que em detrimento de muita banalidade informativa existente por aí).
Por outro lado, Manuel S. Fonseca surge com visões mais profissionais e inteligíveis enquanto profissional, com algumas boas ideias, mas num estilo algo mediatizado, de cultura funcional ou semi-cultura, cujo discurso copywritizado (perdoem-me o termo) denota apenas profissionalismo e orientação mercantil.
Bárbara Bulhosa permaneceu atenta e pouco interventiva nesta particular questão, preferindo avançar para temáticas mais interessantes, referentes às características do mercado e suas discrepâncias, não denotando vícios de uso do espaço público como meio de promoção ou diferenciação.
valter hugo mãe, por seu lado, apresentou/explicou o seu novo livro «o remorso de baltazar serapião» (Quidnovi III), falando no debate somente para denotar as diferenças aparentemente existentes entre capacidades de intervenção dos diferentes editores, potenciando a função do editor em detrimento da função de editar – julgo que acabou por ser o único, nesta óptica, a referir-se verdadeiramente à temática proposta.
Por fim, gostaríamos ainda de referir uma das intervenções finais do público presente, pelo crítico António Guerreiro, que aflorou um assunto pertinente em relação à despreparação das estruturas críticas nacionais (a todos os níveis) e à sua incapacidade em cumprirem a função de agente que equilibra e regula os desvios do mercado, referindo-se à prescrição mediática como mero instrumento de promoção e divulgação (que, presumimos nós, potencia esses mesmos desvios).
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:12 PM | Comentários (0)
abril 27, 2006
Carreiras na edição...
Na edição de hoje do The Independent lê-se um artigo interessante que fala das profissões da edição no Reino Unido.
Apesar de estarmos a falar de universos bastante diferentes - o Reino Unido é o primeiro mercado mundial, sendo a edição uma das suas principais indústrias, onde trabalham muitos milhares de profissionais - existem pontos comuns e interessantes que qualquer profissional (ou profissional to be) gostará de saber.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:20 PM | Comentários (0)
abril 26, 2006
Talheres de Ofício
Esta secção pretende indicar pequenos truques do dia-a-dia editorial que permitem auxiliar e facilitar o trabalho editorial.
Como fazer uma correcta contagem de caracteres em texto impresso
Se estiverem a contar texto em fontes de espaço não proporcional (como Courier), por exemplo, escolham três linhas tipo (cheias e justificadas) e contem todos os caracteres, incluindo espaços e pontuação.
Dividam por três, para obter o número de caracteres por linha.
Se o livro for todo em fonte do mesmo tamanho, texto corrido, sem ilustrações, contem o número de linhas por página cheia e multipliquem pelo número de caracteres por linha, para obterem os caracteres da mancha padrão.
Agora multipliquem pelo número de páginas impressas e acrescentem 10% do total para texto corrente, rostos e ficha técnica, extratextos, etc.
Retirem uma página por capítulo para compensar o número de linhas simples (meias linhas). Retirem também três linhas por subcapítulo.
Se necessário, façam um contagem separada para índices e rodapés.
Tendo obtido o valor padrão de caracteres poderão começar a fazer os cálculos R&C (Receitas e Custos) para avaliar a viabilidade da obra.
Desde logo, se o livro for para traduzir, acrescentem 10% (por segurança), pois na língua de chegada um texto é tendencionalmente mais explicativo, e obtenham o número de caracteres finais da tradução, e o valor da tradução.
Podem igualmente dispor o número de caracteres pela vossa página padrão (do layout final) e obter o número de páginas necessárias e saber quantos cadernos necessitarão, sabendo igualmente o número de páginas para revisão e paginação (se forem externas e pagas à página).
Se a contagem inicial assentar numa fonte proporcional (Times ou Palatino, por exemplo), basta escolher uma linha completa, justificada (que não esteja alterada ao nível do espaçamento...) e contar todos os caracteres (incluindo espaços e pontuação) para obter o número de caracteres por linha. Pelo sim, pelo não, virem algumas páginas e repitam o processo com outra linha.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:04 PM | Comentários (0)
abril 22, 2006
Venderlivros.com
Apesar de muitos editores não entenderem, actualmente, a venda online como um recurso sério, em vários países como a França, Inglaterra ou os EUA as principais páginas (Alapage; Amazon; B&N; Abebooks; Alibris; etc.) já detêm mais de 10% do mercado total. Mais ainda, se pensarmos no mercado externo, onde a Internet é já o principal canal de venda de livros de exportação, ultrapassando as problemáticas da falta de proximidade e acesso.
Entre os problemas apontados é sempre referida a suposta falta de segurança nas transações online, mas com a evolução dos mecanismos de segurança ou o surgimento de sistemas tipo PayPal, já são raros os casos em que tal acontece.
Resta ainda ultrapassar as questões da falta de materialidade do produto no processo de decisão de aquisição, não sendo ainda possível avaliar correctamente o estado, o suposto interesse da obra ou a qualidade, por exemplo.
Para isso, a Amazon.com tem sido revolucionária – por vezes até demais – incluindo cada vez mais elementos comunicativos, já não só a capa e ou elementos catalográficos de descrição e sinopse, como também sistemas de comparação de preços, recensões e opiniões de terceiros, visionamento de várias partes do livro, produtos similares ou concorrentes, assim como todos os serviços possíveis de imaginar e disponíveis na Internet que começam a ser inseridos e experimentados por eles, como por exemplo introdução de wiki (hiperenciclopédias abertas, ou coisa que o valha), percentagens de visionamentos dos produtos, posição no Top de venda, comportamentos aquisitivos dos interessados, tags (indexação por palavras-chave) e listagens, opinião das opiniões, fóruns de discussão, etc.
Como consumidor regular de livros via Internet, tenho hoje ao meu dispor inúmeras ferramentas que muito me agradam (dado procurar, em geral, livros determinados, inicio sempre a busca no Bookfinder para ter o mais completo espectro de preços de novos e usados, comparando diferentes produtos em qualidade e valor, por exemplo) e até hoje nunca me senti defraudado (excepto ter tido de esperar demasiado tempo por um ou outro raro livro), e a maior parte das vezes o resultado é até superior ao esperado, com o livro a chegar antes e em melhor estado do que tinha suposto.
Como nota de discussão referiria somente a necessidade de Portugal acertar o sistema de portes internacionais do serviço universal com países como Espanha ou Inglaterra, de forma a que os mesmos fiquem mais convidativos, e os carteiros passarem a ser fuzilados sempre que amassarem um livro para dentro da caixa do correio de forma a não terem o trabalho de subir dois ou três andares para o entregar em mão.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:43 PM | Comentários (0)
abril 21, 2006
Quem mais?!
Segundo um estudo de hábitos de consumo cultural apresentado pela Livres Hebdo - n.º 637 de 17 de Março de 2006, caso estejam interessados -, em França o principal produto de entretenimento é o livro.
É verdade, mais vendidos que os CD, mais lidos que a Internet, mais vistos que os DVD e os filmes (até os filmes franceses), e mais folheados que as revistas, os livros conseguem 47,2% das respostas dos consumidores, sendo que a maior parte desses consumidores é de mulheres (57%), com destaque para a faixa etária dos 35 aos 49 anos.
Revela também que os consumidores procuram cada vez mais os supermercados e as livrarias de usados e tornaram-se mais criteriosos e mais informados nas suas escolhas, entrando nas livrarias com propósitos específicos e abandonando-as mais vezes sem comprar nada.
Geograficamente o país encontra-se extraordinariamente equilibrado, havendo uma tendência de consumo cosmopolita, destacando-se a região de Paris com 21% das vendas totais (referente a 17,4% da população francesa).
Nesse mesmo dia (17/03), no Salão do Livro, Fabrice Piault comentou o estudo e afirmou o papel da Internet na informação ao leitor do título a adquirir (19% dos consumidores tinham-se informado previamente na Internet).
Mais se indica que a sondagem, da responsabilidade da empresa TNS, foi efectuada por entrevista (frente a frente), o que pode ter distorcido os valores pelos motivos atinentes à autorepresentação e ao valor perceptivo cultural do livro.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:00 AM | Comentários (0)
Tendências
Já é sabido que as Feiras de Frankfurt e Nova Iorque foram marcadas pela tendência de publicação de obras de celebridades da área da música.
Eis que surge agora um dos menos aguardados e muito surpreendente livro de...
Snoop Dogg!
levar as mãos à cabeça e gritar, ó meu Deus, aqui
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 09:45 AM | Comentários (0)
abril 20, 2006
Literatura em Viagem
A Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos, organiza nos próximos dias 22, 23 e 24 o LeV - Literatura em Viagem, com a presença dos principais autores da lusofonia de livros deste segmento, para além de algumas estrelas internacionais, como Olivier Rolin, Patrick Deville, José Manuel Fajardo e Santiago Gamboa.
De realçar a presença dos editores João Rodrigues (Dom Quixote) e Manuel Valente (ASA).
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:28 AM | Comentários (0)
abril 19, 2006
Felizmente não trabalhamos lá...
A Comissão Europeia acaba que apresentar uma recomendação onde afirma que todos os resultados científicos cuja investigação tiver tido apoios comunitários ou dos membros da comunidade deverão estar acessíveis gratuitamente via Internet.
Boa recomendação consideramos todos, excepto os grupos editoriais cuja subsistência depende da publicação de revistas da especialidade, como a Reed Elsevier ou a Springer.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:24 AM | Comentários (0)
Direct-Phone?
A Simon & Schuster prepara-se para lançar um novo sistema de promoção e comercialização de títulos.
Até aqui tudo bem, calculo. Mas, e se vos disser que é através de uma subscrição de envio de excertos, sinopses e imagens pelo telemóvel?
Já não falta muito para a Random House passar a vender audiolivros assim...
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:14 AM | Comentários (0)
abril 18, 2006
«A relva é mais verde do outro lado?»
Li no BBBB (Big Bad Book Blog) um post interessante relativo a devoluções.
Para quem não sabe o que são devoluções, digamos, somente, que é a maior dor de cabeça de todos os editores.
Contrariamente a quase todas as indústrias (e definitivamente contrária à indústria de edição de música!) na edição de livros as editoras têm a desgraça de ser as únicas responsáveis pela quantidade de produtos que colocam no mercado e, se os dilectos livros não vendem, regressam para casa como a trouxa colada à contracapa e cicatrizes nas folhas de rosto. Atafulham armazéns quentes, onde ficam numerados até ao tecto à espera de um novo livreiro que os queira, de um pássaro que faça o ninho entre as capas ou de serem enviados para uma gráfica de extermínio onde uma guilhotina separa cruelmente palavras entre si, vogais de consoantes, sujeitos de predicados, munken’s de chromocard’s.
Como em tudo o resto, as médias também são difíceis de fazer em Portugal, e dependendo dos títulos e dos segmentos, assim como dos locais de colocação, as devoluções podem ser de 30, 40 ou mais porcento das tiragens, destruindo por completo as previsões erradamente feitas de break-evens idílicos. Se a isso juntarmos possíveis tiragens mal estabelecidas para livros de vida curta, o resultado pode significar 70% da tiragem perdida entre caixotes e pó filtrado pela luz dos telhados de zinco.
Uma das diferenças entre o nosso mercado e o mercado americano é que lá as editoras são fortes e bué [Dicionário da Academia dixit] de más e, em vez de implorarem numa livraria a colocação de meia dúzia de míseros livrinhos (e sei bem que meia dúzia de vários livros, todas as semanas, dá muitos livros), eles pura e simplesmente enviam-lhes os livros que «calculam»que poderão vender (sem sequer perguntar primeiro se eles os querem).
Esses cálculos são inclusive feitos a partir de programas algorítmicos que analisam o comportamento das obras padrão e o historial das vendas locais para definir um valor de venda provável, juntando a isso uns quantos exemplares adicionais para o caso de o livro resultar. Se o livro não vender, a livraria que se amanhe com os caixotes e devolva passado uns meses ao remetente.
Com mais ou menos engenharia financeira e desagrado, em ambos os casos o resultado parece ser idêntico: devoluções.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 11:57 AM | Comentários (0)
abril 17, 2006
Livros oportunistas

Na indústria de conteúdos e, logo, na indústria de Edição, todos os livros são considerados únicos, irrepetíveis, frutos de um projecto de concepção de conteúdos e grafismo que de boa mente se delega ao fruir da sociedade. Verdade ou não, prefiro deixar essa consideração à disposição de quem, de facto, frui de modo único os bons e maus livros que se vão fazendo nesta nossa sociedade. O que me interessa neste preciso momento é falar de sucessos comerciais (temáticas ou segmentos) que rapidamente despertam seguidores.
Como uma indústria que necessita de apresentar constantemente novidades e inovações para o mercado, a edição depende das características do produto que apresenta, assim como do seu rápido desenvolvimento e comercialização, para desenvolver os seus projectos (financeiros ou outros). Dado que actualmente os ciclos de vida se tornam cada vez mais curtos, ficando as taxas de rentabilidade sujeitas a rápidos retornos, isso obriga a que se rentabilizem rapidamente todos os produtos que saem. Por sua vez, para se conseguir isso os produtos devem depender de tendências e correntes de publicação cujo sucesso esteja, à partida, assegurado num breve período.
Assim, quando em finais do século passado o primeiro livro de Dan Brown (Digital Fortress – a ser lançado este mês em Portugal) foi adquirido para publicação pelo grupo St. Martin’s Press (na marca Griffin), o autor era mais um desconhecido, não sendo uma aposta forte da marca. Como Dan Brown, muitos outros autores tiveram a felicidade de produzir algo que os editores julgaram interessante para trabalhar e oferecer aos seus leitores nesta ávida necessidade de produtos para o mercado.
Sendo que o sucesso inicial de Dan Brown assentou nesta estratégia de publicação, pois a temática (thriller tecnológico e terrorismo de informação) interessava em particular aos norte-americanos paranóicos que temem os sistemas de vigilância governamental ocultos sob a capa de segurança interna – mercado esse que tem vindo a crescer rapidamente –, este livro acabou por ser um sucesso.
Como todos os sucessos, só é conseguido devido à conjuntura em que foi escrito, à sua relevância para a cultura do momento, em suma, à oportunidade. Longe de tentarem criar uma nova tendência de publicação, Dan Brown e os seus editores seguiram as tendência já existentes. As tendências são criadas por controlos, ou manipulações, comunicacionais nas sociedades complexas (independentemente dos objectivos) que dão origem, propositadamente, a comportamentos diversos, entre eles, o da compulsão à compra (ex. publicidade).
Mais tarde roubado pela rival Random House (para a marca Doubleday), Dan Brown limitou-se a seguir novamente as tendências e a obter um sucesso inqualificável a todos os níveis. Como nota de curiosidade, os dois grupos editoriais pertencem a conglomerados alemães (Verlagsgruppe Georg von Holtzbrinck detém a St. Martin’s Press; Bertelsmann AG detém a Random House).
Se todos os maus filmes deixam sequelas, todos os sucessos despertam seguidores.
Com produtos novos ou outros disfarçados de «respostas» ou «explicações» a uma ou mais questões surgidas no conteúdo da opera major, surgem imediatamente no mercado obras relacionadas ou semelhantes que tentam aproveitar a oportunidade criada pelo livro inicial. Muitos leitores tendem a menosprezar essas obras como menores, ou parasitas, considerando-as simples oportunistas sem qualidade ou capacidade criativa que rapidamente imitam o já criado.
Talvez. No entanto, para que uma obra seja publicada, uma editora teve de escolhê-la e promovê-la de forma a ser vista pelo público. Se escrever é, de facto, um acto criativo, publicar é um acto objectivo de satisfação das necessidades, ou seja, de aproveitamento das oportunidades e das necessidades criadas pelas oportunidades.
De uma editora, são só exigíveis critérios de qualidade e respeito pelo público leitor a que se destinam os livros publicados. Como tal, todas estas obras em nada perdem genericamente para as outras em termos de qualidade ou respeito pelo leitor, sendo todas oportunistas por natureza.
Dessa forma, O Código Da Vinci e similares são fruto de uma mesma política e filhos de um mesmo mercado.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 04:59 PM | Comentários (0)
abril 14, 2006
Adiamento do 2.º Congresso de Editores
Informa-nos o secretário da UEP que o 2.º Congresso de Editores, que se iria realizar nos próximos dias 19 e 20 de Abril, em Lisboa, foi adiado para data «a anunciar oportunamente».
Dizem-se certos que entenderemos «os motivos desse adiamento».
Sem os referirem, fazem pressupor que os motivos por detrás desse adiamento são não outros para além dos motivos que todos nós entendemos, ou seja, não se prendem com contingências várias, mas com conjunturas e problemáticas que vêm de trás e que não foram solucionadas de modo a prosseguir com este Congresso, nesta data.
Sic Transit Gloria Mundi
Agora, somente uma curiosidade da comunicação:
Segundo o sociólogo da comunicação Hans Enzensberger, na sua análise da manipulação, afirma que quando o acto de comunicar é pautado pela passividade social, não passa de uma conversa restrita marcada por lamúrias (contra a ordem activa) e sectarismos (a passividade desenvolve-se centriptamente).
Essa «não acção» dos indivíduos tira pertinência e lugar às pequenas estruturas sociais onde eles actuam e ao seu papel na sociedade onde estão inseridas, anulando o papel individual dos mesmos.
Em suma, perdem o seu lugar na construção da realidade.
Interessante, não acham?
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:57 AM | Comentários (0)
abril 13, 2006
Requiem para um capista
O The Guardian de ontem trazia um artigo bastante interessante sobre Germano Facetti, o capista que imortalizou a imagem de marca da Penguin Books e que faleceu no passado fim-de-semana.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:36 PM | Comentários (0)
Portugal é o país convidado na Feira de Turim
O Diário de Notícias – que é, aliás, o único jornal diário que se dedica regularmente às temáticas ligadas à indústria da edição – informa na edição de hoje que Portugal é o país convidado na Feira do Livro de Turim.
Numa análise desconhecedora o público é levado a crer que, de facto, algum trabalho tem sido feito pela parte dos sucessivos governos no sentido de internacionalizar os nossos produtos. Vejamos agora algumas outras questões que, infelizmente, não vêm abordadas naquela notícia.
Desde 1998 que o Estado português transferiu a responsabilidade da representação externa deste sector para o âmbito do ICEP, tendo isso levado a uma quebra de 80% no financiamento da nossa representação. Isso deveu-se à avaliação do produto livro português numa óptica de exportação, e o resultado levou o editor da Pergaminho e ex-presidente a UEP, Mário Moura, a desabafar referindo que o Estado investe mais na sardinha do que no livro (jornal inside, 05/10/2003). De facto, e independentemente destes produtos (livros, não sardinhas) serem considerados como prioritários e principal fonte de receitas de exportação em países como o Reino Unido ou a Espanha, a análise à viabilidade dos nossos livros partia do pressuposto que o único mercado existente era o da lusofonia – apesar de o principal país importador de conteúdos em português ser a França, seguido da Alemanha e da Itália, e onde até a China e a Rússia se apresentam como relevantes.
Quanto a actuação do Governo nessa matéria, o Estado continua a confundir o seu papel no sector do livro, o que ocasiona políticas erradas sendo o pouco dinheiro investido na internacionalização gasto de forma pouco produtiva.
O Estado, desde sempre se assumindo como interveniente no apoio à função utilitária do livro, quer como recipiente e distribuidor de informação importante para o desenvolvimento do país, quer como recipiente e instrumento de fomento da língua e da literacia, desde meados da década de 1990 optou, correctamente, pela óptica de apoio à Oferta. Deixou de intervir [muito] nas condições de produção das editoras nacionais e só interferiu de forma reguladora na questão da Lei do Preço Fixo do Livro, na definição de regras para o mercado escolar, assim como na normalização e definição das obrigações das empresas para com o Estado e o acervo cultural nacional. Quando surgiu a necessidade de apoiar as nossas empresas na internacionalização, o Estado tentou aplicar a mesma óptica de apoios, o que, de facto, não resulta.
Um grande editor português, recentemente em conversa privada, deu o exemplo do ano em que Portugal foi o país convidado no Salão de Paris (2000), referindo que ao chegar lá ficou surpreendido com o magnífico pavilhão (recheado de belas fotografias!) e com a incrível quantidade de autores portugueses que lá tinham ido representar a literatura lusa. Não faltava ninguém, ...excepto quem vendesse os livros.
Se há alguns anos atrás o Governo se queixava dizendo que não devia pagar o alojamento aos editores portugueses (e não deve, de facto), por que motivo deverá pagar aos autores portugueses? Será o seu papel nesses certames semiprofissionais assim tão importante para a sua escrita e para a exportação dos livros?
Por que será que o Estado português não compreende que a acção que deve tomar neste sector é exactamente a mesma que é exigível para os restantes sectores de actividade: celebrar acordos de redução de tarifas; fomentar acordos e parcerias empresariais; apoiar a produção de materiais promocionais; apoiar estruturas e mecanismos de exportação como linhas de créditos e acordos cambiais; normalização dos procedimentos, etc.
Se noutros anos íamos a Roma lançar ouro ao povo, hoje vamos a Turim lançar belles-lettres.
Por falar em Turim, recordo-me de outra conversa em que se punha em questão a ida a Turim. De onde surge agora Turim? No momento em que as feiras internacionais passam a ter um papel de encontro protocolar (pois as negociações fazem-se essencialmente com recurso às novas tecnologias), e na altura em que surge uma nova e pequena feira com intenções de se internacionalizar, Portugal opta por desperdiçar os seus recursos nesse evento. Essa visão errática de actuação já em 2003 levou a que o Estado português surgisse sozinho na Feira de Tóquio – os editores souberam do evento a posteriori pelos jornais.
Notas adicionais:
Senhores representantes, deverão estar algo confusos, pois levar os Prémios Nacionais de Ilustração para Turim (e independentemente dos magníficos trabalhos em questão) é confundir as feiras. Bolonha foi há 15 dias atrás.
Resta-me congratular a acção de Diogo Madre Deus e Hugo Xavier, da Cavalo de Ferro, pelo excelente trabalho que têm vindo a fazer no mercado italiano e que bem gostariam que o dinheiro gasto neste evento pudesse ser útil na sua acção empresarial nesse mercado – garanto-vos que os resultados seriam bastante mais compensadores para o défice da balança comercial.
Igualmente sublinho a apresentação do livro do Prof. Ivo Castro, docente do CETE, que certamente será bastante útil na divulgação da cultura e da língua portuguesa, fomentando o estudo do nosso idioma nesse país.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 10:19 AM | Comentários (0)
abril 11, 2006
Jornada de negócios Brasil/Espanha
A Câmara do Comércio e Indústria de Madrid está a organizar para o próximo dia 24, em São Paulo, uma grande jornada de negócios editoriais entre Brasil e Espanha, com a presença de 20 empresas espanholas do sector editorial (em particular editoras académicas e dos segmentos das ciências sociais e humanas) e de distribuição de livros.
Esta acção tem por objectivo estabelecer acordos de distribuição cruzada, co-edições, venda de direitos, representações, acordos de marketing, impressão e pré-impressão.
Resta saber por que motivo o ICEP, ou as duas associações de classe (APEL e UEP) não seguem o exemplo e começam a preparar acções iguais.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 04:31 PM | Comentários (0)
Best’iário: o best-seller
É comum ouvir-se dizer que não se sabe exactamente o que um best-seller é.
Ouve-se também dizer que este produto é «um sucesso de vendas», acabando por ancorar a discussão em torno da decorativa questão: a partir de quantos exemplares vendidos se tem um best-seller?
Antes de avançarmos para outras questões, gostaríamos de tentar afastar as gralhas e aplacar a curiosidade dos mais ávidos.
Se nos referimos meramente à questão contabilizável do número de exemplares vendidos – recordando-nos que a rentabilidade de uma obra não se cinge somente ao número de exemplares vendidos, mas também a uma diversidade de outros factores –, os valores variam com a dimensão do mercado, na análise estrita do público potencial e seus hábitos de compra, e também com as características comerciais desse mercado. Dessa forma, e segundo estudos realizados no mercado dos EUA (NEOA), um best-seller ocupava em 2004 uma share média de 0,5% das vendas globais de livros, o que equivale a dizer que, grosso modo, e escusando-me por não fazer aqui as várias contas necessárias, nos EUA, um best-seller é um livro que vende pelo menos 1 800 000 exemplares.
Mas Portugal não é a América, já sabemos.
Como os valores em Portugal se contam por estimativa individual, i.e. por opinião (por motivos mais do que conhecidos e expressos), e julgando-se que o valor global das vendas deste ano rondou pouco mais de 500 milhões de euros – voltando a fazer de cabeça a conversão com base na share indicada se o nosso mercado funcionasse da mesma maneira, o que não acontece –, daria algo como 125 000 exemplares.
Assim vêem por que motivo estas contas nunca devem ser feitas.
Em Portugal, actualmente, «considera-se» um best-seller algo que ultrapasse os 40 000 exemplares. Quando digo «considera-se», refira-se que esta noção é baseada na experiência recente dos agentes de mercado, pois esse valor altera-se de acordo com os fenómenos por que o sector vai passando, tendo Portugal assistido só muito recentemente à criação de um mercado mainstream digno desse nome. Alguns anos antes, vários apontariam para os 10 000 ou 20 000 exemplares.
Mas isso não responde à questão: o que é um best-seller?
Um best-seller não é um produto aleatório, como por vezes se ouve dizer. Se bem que todos os produtos culturais acarretem um relativo grau de risco, um best-seller é um produto que depende da conjugação de determinados instrumentos de estratégia editorial, marketing, promoção e comercialização. Igualmente, serve para determinados fins de gestão e programação, ocupando um espaço importante na política de publicação de uma editora que trabalhe esse mercado.
O best-seller é, em resumo, um produto que se define por um comportamento comercial padrão (ciclo de vida) onde a característica principal é a alucinante subida de um pico único de vendas.
Este produto necessita, antes do mais, de ter uma preparação forte do terreno, o envolvimento prévio dos restantes agentes mediadores a jusante, garantindo espaço, visibilidade e cooperação de todos (a título de exemplo refiro que uma obra destas não deve ser enviada para a imprensa na altura em que sai, mas sim pelo menos um mês antes para garantir que a divulgação se faça na altura exacta do lançamento). Em suma, todos os esforços se devem concentrar num muito reduzido espaço de tempo.
De facto, o resultado deste produto depende desse denominado ramping, que pouco tem a ver com a vulgar noção de lançamento do livro e que é a conjugação dos vários instrumentos que permitem projectar o livro para o mais elevado pico de vendas possível no mais curto espaço de tempo. Os resultados deste produto definem-se exclusivamente pela «altitude» do pico.
Necessitando de grande investimento, tanto em royalties como em marketing, promoção e comercialização, este produto não está ao alcance de uma editora sem grande estrutura comercial, e qualquer tentativa de o fazer sem essa base levará à queima, ou subaproveitamento, das potencialidades do mesmo.
Em relação às temáticas, são algumas as possibilidades – todas elas caras. Por vezes, os fenómenos assentam na cultura mediática e televisiva, por outras nas tendências de publicação actuais (como a fase corrente de policiais histórico-religiosos), nos fenómenos sociais e culturais e, claro está, no interesse e capacidades do livro e do autor. Normalmente são fenómenos na área da ficção (seguindo regras de escrita, edição de texto [ou editoração] e grafismo apropriado) ligados à cultura do dia-a-dia do denominado público em geral (relações pessoais e grupais, problemas da sociedade, religião, ou temas como morte, sucesso, dinheiro, ou amor).
O facto de um best-seller se manter nos tops durante algum tempo – os denominados «best-sellers constantes», como O Código Da Vinci (que fez recentemente o terceiro aniversário seguido de Top) – é um resultado adicional e não depende da política de publicação, mas sim de outros factores relacionados com a sociedade e o conteúdo do livro.
Como produto, é igual à fruta: tem a sua época, ou melhor, épocas, onde a maturação consegue ser maior ou menor. As épocas preferenciais para potencializar um best-seller são a época média da rentrée (para apanhar o pré-Natal), que em Portugal é tardia e corresponderá às semanas de início de Outubro, e a partir da Páscoa (após as mini-épocas) até à Feira do Livro (de notar que durante a Feira do Livro é já tarde para lançar uma obras dessas, pois pouco tempo de mercado terá antes de entrarmos em época de quebra/férias).
Em termos de gestão, este produto é importante pois é alvo de fortes investimentos e tem como comportamento financeiro um mais rápido e lucrativo retorno (apesar de as condições negociais leoninas dos parceiros comerciais serem, por norma, apertadas). Por outro lado, estas obras trabalham-se numa perspectiva de frontlist, ou seja, como novidade, e dificilmente poderão ser explorados como fundo editorial, pois têm normalmente fraca capacidade de sustentação no mercado (dado serem produtos de série, rapidamente são substituídos por outros bastante equivalentes).
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:32 PM | Comentários (0)
abril 10, 2006
Dragões e Tiaras: relatório da Feira de Bolonha
No final do mês de Março (27-30) teve lugar a 43.ª Feira de Bolonha.
Iniciada na década de 1960, a Feira de Bolonha é actualmente o principal mercado de comercialização de direitos nos segmentos dos livros para os mais jovens, ocupando uma área de 7 pavilhões e 20 000 metros quadrados.
Este ano o país convidado foi a Hungria.
Tradicionalmente frequentada por alguns editores portugueses mais vocacionados para estes segmentos, Portugal foi um dos 63 países presentes.
Tal como esperado, e apesar das preocupações ultimamente manifestadas pela indústria, que exige uma nova abordagem na colocação das obras para adolescentes no espaço de venda, diferenciando-a da literatura infantil (pois os adolescentes retraem-se ao serem tratados comercialmente como crianças), os segmentos para adolescentes (teen e pink), a ficção e a fantasia continuam a ganhar uma predominância sobre os sempre procurados livros infantis.
Em grande destaque este ano estiveram as edições ilustrações, em co-edição e packaging, sendo esperado que até à época do Natal surjam obras de grande formato e elevada qualidade gráfica.
Os grandes vencedores da 43.ª feira acabaram por ser as editoras alemãs, relegando para posições de menor destaque os gigantes Harpercollins e Scholastic, mas o destaque especial da Extratexto vai para o livro:
Al-samaqa-l-fadiah ("O Peixe de Prata"), de Afaf Tubala (texto) e Adly Rizqallah (ilustrações), pela editora Nahdet Misr, do Cairo, Egipto.
Sinopse:
O livro investiga os modos de funcionamento do papel (texturas, superfícies, espessuras e composições), abordando técnicas que vêm desde Paul Klee. O brilhante trabalho destes autores consegue recriar uma verdadeira história da nossa civilização de papel de uma forma simples e com uma cuidada estética.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 12:07 PM | Comentários (0)
abril 09, 2006
Apresentação e participação
Caros amigos, sejam bem-vindos a este extratexto.
Até há poucos anos, seria um paradoxo pensar que uma forma de publicação individual, sem um suporte material concreto – como na realidade são os blogues – serviria para abordar temáticas relacionadas com os Estudos Editoriais e a indústria sobre a qual assentam os seus estudos. Hoje em dia, mais bem definidas as características e aptidões de cada meio de comunicação, o livro transfere alguns dos modelos comunicativos para “irmãos” mais capazes e vocacionados, como o blogue.
Comunicação meta-epistolar, como alguns humoradamente o definem, o blogue tem uma capacidade de penetração no público-alvo que o livro – pelos problemas atinentes à sua materialidade – nunca irá conseguir. Com uma interactividade que deixaria Erasmo espantado, diferentes vozes podem moldar a criação de conteúdos e ideias numa simultaneidade que particularmente me agrada. Se a ciência é a remoção das camadas de poeira até ao vislumbre do centro da Terra (ou do Inferno, como alguns se permitem acreditar), logo uma errância composta de erros tendentes ao conhecimento, então que se permita “errar” consecutivas vezes neste blogue para que, da discussão, surja alguma verdade provisória.
Neste espaço destinado à informação e discussão de assuntos que tanto nos interessam, convidamos à participação todos os alunos e ex-alunos deste curso, assim como de outros que versam sobre publicação, edição de texto, sociologia da cultura (em particular do livro e da leitura, e da edição), assim como docentes, investigadores ou interessados. Este convite é igualmente extensível a profissionais de áreas relacionadas com a indústria e o mercado do livro: autores (na sua condição de produtores de conteúdos), revisores, editors, tradutores, gráficos, editores e coordenadores editoriais, agentes, prescritores (jornalistas ou críticos), livreiros e toda uma plêiade de profissionais que, em Portugal, está contabilizada em mais de 5 000 pessoas.
Essa participação far-se-á, naturalmente, nas notas de rodapé (comentários), mas também pela publicação de textos, devidamente identificados, enviados para o email disponível abaixo do título do blogue.
Obrigado pela vossa participação.
Enquanto instrumento de divulgação, o editor deste blogue reserva-se o direito de avaliar, editar o texto (conjuntamente com o autor e sempre que necessário), rever e decidir pela sua publicação ou manutenção no blogue.
Mais se informa que este blogue serve para divulgação de ideias e eventos, e não para a promoção de livros ou apresentação de sessões promocionais ou publicitárias sem relevo específico.
Publicado por Nuno Seabra Lopes às 03:09 PM | Comentários (0)